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micaias

Guerra colonial, Moçambique1

Avatar do autor Jota.Coelho, 12.06.07

 

 


 

 


 

A PERPELEXIDADE DOS PLANOS

 

O sentimento patriótico está a degenerar num grave sentimento oportunista para os bem instalados na administração colonial, e pode conduzir à degradação das relações entre desiguais que labutam à míngua dos poderes obscuros, o que é extremamente desolador e frustrante para os mais moralizadores.

Por mais bem urdidos que sejam os relatórios oficiais sobre a situação da guerra, a realidade não pode ser encoberta por muito tempo; pois mais de metade das vitórias descritas nos comunicados oficiais são fictícias e incrivelmente pouco convincentes para a população. Inventam-se assaltos a acampamentos inimigos que nunca existiram; o pouco espólio de guerra resultante das operações de assalto é conseguido pela acção de tropas especiais e alguns grupos de tropas do Exército mais ousados, em alguns casos com uma boa dose de sorte; mas a ousadia conjugada com o azar tem custado uma desmesurada quantidade de militares mortos. Para um exército activo de mais de cinquenta mil homens, o material apreendido é demonstrativo de fracos resultados operacionais.

Aparentemente a guerra está perdida, não pelo fraco empenhamento das tropas no terreno, mas por outras razões muito objectivas e vergonhosas que se conhecem:

A corrupção económico-financeira é latente ao nível de alguns chefes administrativos; o desvio de dinheiros e de materiais para fora do circuito militar começa a ser notório em alguns sectores de apoio logístico às linhas da frente; o florescer dos novos empreendedores na construção civil está intimamente ligado à corrupção nas forças armadas coloniais; quantas vezes a mesma viatura pesada atingida pelo rebentamento de minas foi substituída por uma nova, sem que a nova chegasse ao seu destino - porque tinha sido desviada para trabalhos particulares dos oportunistas e corruptos. E o material de guerra, perdido por negligência ou desviado para outros fins, que tem sido abatido à responsabilidade dos militares que tiveram o azar de morrer nas zonas de guerra!

Qual poderá ser o moral de uma tropa de intervenção cujas estruturas logísticas fornecem a alimentação aos soldados a 24$00 por dia e aos cães a 32$00 por dia?...

E, que vontade de arriscar a vida podem ter os combatentes que palmilham centenas de quilómetros para assaltar um eventual acampamento inimigo, com resultados sem expressão, quando os poucos meios aéreos de apoio e para evacuação de mortos ou feridos andam a servir de recreio e na caça grossa, transportando os chefes de sector ou oficiais de operações?

Então, quando é sabido que em determinada zona de Cabo Delgado tem aumentado a perigosidade, com a restrição de meios de apoio, ninguém se afoita para avançar. Pois os exemplos de consequências trágicas são diversos, tal como numa operação a norte de Diaca, onde os oficiais de operações tinham indícios da existência de um acampamento inimigo e determinaram o avanço de três companhias de tropas especiais (pára-quedistas, fuzileiros e comandos) para o assalto. Os resultados foram desanimadores para tanta tropa em acção: apenas um machambeiro preso - tratava-se de um acampamento de apoio logístico a pessoal da Frelimo. E, três dias depois desta operação, determinaram que apenas uma companhia era suficiente para efectuar o reconhecimento do Vale de Miteda, e assaltar um acampamento da Frelimo lá existente. Mas já havia informações de prisioneiros, e os indícios de movimentos intensos na zona atestavam-no, que seria aí que estavam localizadas as principais bases dos guerrilheiros entre o rio Rovuma e o rio Messalo.

Para aí intervir, todos comandantes de companhia se retraíram e com alguma razão. Por incrível que pareça, a intervenção nessa zona foi entregue a uma só companhia! Foram os pára-quedistas que tiveram de avançar na operação com o objectivo oficial de encontrar e aniquilar os inimigos que se presumia estarem numa base operacional ali instalada.

Os responsáveis da logística do exército aproveitaram a passagem dos pára-quedistas pelo destacamento de Miteda para mandar quatro camiões de reabastecimento com alimentação e água; pois, nas duas tentativas anteriores com tropa do Exército, não chegaram ao destino, por efeito dos ataques do inimigo que, além de destruírem as viaturas e as respectivas cargas, ainda causaram alguns mortos e feridos à tropa.

E os pára-quedistas lá seguiram na sua missão, cuidadosos e avisados, fazendo o percurso apeados, nas zonas consideradas menos seguras, atentos às minas que pudessem estar no caminho e a quaisquer movimentos do inimigo. Feito o percurso de Mueda a Miteda sem percalços significativos, chegaram àquele destacamento ao princípio da noite. Na chegada, a ausência de pessoal nos postos de vigia causou alguma estranheza; mas não demorou a perceber-se o estado de espírito do pessoal ali destacado! Pareciam todos cacimbados a sair de dentro duma camarata coberta de chapa, onde as camas estavam abaixo do nível do terreno adjacente. Receberam os pára-quedistas como se fossem divindades estranhas, com rezas, abraços e choros, tal era o seu estado depressivo.

Pudera! Com os principais alimentos esgotados havia semanas, comiam batatas assadas na fogueira; de vez em quando, uma amostra de carne de algum bicharoco que ficava nas ratoeiras que os furriéis e um primeiro-sargento tinham montado fora do arame farpado. Ah! Ainda conseguiam comer algum pão que faziam com a pouca farinha que lhes restava. De resto, notava-se uma amarga agonia à espera do fim!

Pouco mais de uma hora depois da chegada, começaram a cair morteiradas na periferia do arame farpado, e a confusão foi inevitável. Os pára-quedistas procurando tomar posição nas trincheiras abertas por diversos lados, especialmente próximo da cerca de arame farpado, cruzando-se com os militares do destacamento local, mas muito poucos deles tomaram posição de defesa. O cabo apontador do morteiro de 80 toma posição e procura atingir o morro de onde sai o fogo inimigo; mas o inimigo está distante, não se ouvem tiros de espingarda. Toda a gente fica na expectativa, esperando não ser atingido pelos estilhaços dos rebentamentos das granadas inimigas. Terminado o espectáculo, apenas ficaram as sentinelas de vigilância, e os pára-quedistas procuraram animar os companheiros ali destacados e muito desmoralizados. O comandante da companhia ali destacada estava recolhido numa barraca construída num vão do terreno, com telhado de zinco, rezando o terço juntamente com outros militares; estes nem chegaram a pegar nas armas durante o ataque inimigo. Isso causou alguma perplexidade aos pára-quedistas, mas, nas conversas que se seguiram com os sitiados ficou clara a difícil situação de abandono e estagnação humana daquela gente.

Passada a noite, logo pela manhã, os pára-quedistas embarcaram nas viaturas que os transportaram para a zona do objectivo que lhes foi determinado. Três unimogues e uma Berliet serviram para esse transporte na direcção de Nangololo, numa distância aproximada de 30 quilómetros; um pelotão de Miteda manobrava as viaturas e asseguravam o seu regresso.

 

 

 

 

 

Já apeados e seguindo para norte da picada de Nangololo, entraram no temível vale de Miteda; pouco mais de quinhentos metros andados numa picada muito usada, ouviram-se os primeiros tiros, seguidos de rebentamentos de granadas. O cabo Fonseca logo comentou: “Lá estão os checas a experimentar as armas”. (Era frequente os apontadores da metralhadora MG ou Breda da viatura da frente abrir fogo para assustar o inimigo). A preocupação sobre o que teria acontecido aumentou quando, uns quilómetros mais à frente, foram interceptados três guerrilheiros vindos da direcção de onde provinham os tiros; o pessoal da secção da frente tentou agarrá-los à mão, evitando abrir fogo para não denunciar a presença da tropa; mas, para incerteza do futuro, apenas um foi apanhado com a respectiva arma. A partir dali, e com a fuga dos outros guerrilheiros, é certo e sabido que a missão estava mais dificultada; até porque o “efeito surpresa”, fundamental para o sucesso, tinha ido para o diabo.

Enquanto isso, os militares de Miteda sofriam mais um revés nas suas motivações para a guerra: não foram tiros dos “checas”, mas um inesperado ataque dos guerrilheiros que destruiu um unimogue e matou três militares, ferindo mais alguns.

Poucos dias depois desta tragédia, os pára-quedistas regressaram a Miteda, desolados e cabisbaixos, por não terem levado a missão a bom termo, porque a zona era dominada pelos guerrilheiros que não deram tréguas até emboscarem a nossa tropa donde resultou um morto e três feridos graves. Como um mal nunca vem só, ficaram ainda mais consternados ao tomarem conhecimento do ataque que atingiu as tropas de Miteda.

 

Mueda, Julho de 1966

Joaquim Coelho

in "A Guerra Armadilhada" - pedidos para: jotasousa39@gmail.com

 

 

 

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