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micaias

Tormentos da Guerra em Angola

Avatar do autor Jota.Coelho, 23.11.23

Angola em Combustão e os militares em reocupação

    Passada a primeira onda das terriveis barbaridsades protagonizadas pelos bandoleiros da UPA, onde o terror das matanças não poupou ninguém, a tropa começou a entranhar-se nas terras do Norte de Angola, tentado abrir caminho na busca das populações das Fazendas do café que fugiram para o mato.

...Há que romper caminho....jpg

    A progressão das colunas militares era demorada e dificultada pelas grandes quantidades de árvores atravessadas nas picadas em toda a região dos Dembos. Foi numa das primeiras que entrei na confusão, acompanhando os Caçadores Especiais, onde fiz a minha primeira "Reportagem de guerra", logo na primeira semana de Abril de 1961. Ora, entrei no ambiente da guerra sem ter concluido a formação de combatente.

    Meses maIs tarde, regressei a Angola e integrei uma companhia de Pára-quedistas do BCP21, sendo deslocado para São Salvador do Congo, onde a companhia tinha por missão fazer o reconhecimneto das povoações consideradas abandonadas pelos brancos e tentar encontrar os que escaparam à chacina. Assim, fomos distribuidos em grupos de 12 a 18 pára-quedistas, seguindo cada um o seu itinerário devidamente definido pelos chefes militares. O meu grupo, chefiado pelo sargento Assis, dirigiu-se de Maquela do Zombo para Quibocolo; uma povoação situada a meio caminho entre Maquela e a Damba.

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Quibocolo – ATAQUES EM MASSA

        A chegada a Quibocolo foi uma surpresa aterradora. Logo na entrada da estrada que vem de Maquela do Zombo, há cabeças cortadas à catanada espalhadas pelo chão. São dos bailundos que ficaram para ajudar os brancos que tiveram de fugir para a Damba.

– Mas que selvajaria – diz o Alfredo!

Logo o Quaresma atalhou:

– Os turras do Holden Roberto são mesmo sanguinários para com as outras etnias de pretos. Até parece que nem são angolanos.

– Olha Quaresma, dizem que são bacongos do Congo Belga, e até andam com alguns missionários dos evangélicos.

        As duas secções de pára-quedistas organizam-se em grupos de cinco para bater as casas e palhotas destruídas. Alguns sacos de terra são colocados em cima do terraço de uma das casas ainda seguras, a que se juntam uns blocos de adobe para servir de parapeito e abrigo contra os atacantes. Ficar em abrigos no chão é o suicídio, atendendo à grande quantidade de terroristas que costumam atacar.

...Angola - Defesa.jpg

        Chegada a noite instalam-se os primeiros pára-quedistas. As granadas e as provisões são dispostas ao lado dos abrigos, enquanto o sargento Assis dá as últimas instruções para a defesa daquele posto: “Muita atenção ao gasto de munições; não quero que nos aconteça o mesmo que aconteceu à malta que esteve no Bungo, se não fossem reabastecidos pela Dornier, ao fim de três ataques já estavam a ficar sem munições.”

       Durante a noite, ouve-se um murmúrio longínquo cujo alarido indicia movimentos de terroristas nas imediações. A alvorada traz alguma inquietação, mas não se esperam surpresas; as experiências dos dias anteriores dão alguma confiança ao grupo. Esta calma aparente manteve-se durante todo o dia, de vez em quando quebrada pelo chilreio das aves no meio da mata. E o Alfredo olha fixamente para a floresta, e pergunta ao Serôdio:

– Quando foste cagar ao pé daqueles tufos verdes, não viste se havia lá água?

– Debaixo daquelas mangueiras nasce um pequeno fio de água.

O Alfredo sorri, puxa do cantil e bebe umas boas goladas da última reserva. Limpa a boca, calmamente e dispara:

– Eh malta, temos água ali ao lado daquela plantação de feijões! – Virado para o sargento, diz:

– Meu sargento, é melhor enchermos os cantis enquanto isto está calmo.

– Pessoal, em grupos de três, vão reabastecer-se de água.

        Um a um, descem do posto de vigia, passam pelo meio dos escombros e das cabeças espalhadas no caminho, pedindo aos céus que chova para abafar o cheiro que invade o ambiente. Cem metros abaixo, encontram a água a correr por entre os feijoeiros.

...A-Sacandica - lavar a catinga....jpg

     Partilham a frescura da água e a sombra das mangueiras que os protegem dos raios solares, envoltos no silêncio da mata, que nem pensam na guerra. O Santos, que parece estar noutras latitudes, interrompe a quietude do Serôdio e diz:

– Como estará o meu puto, agora com seis meses? Já ando nesta merda há mais de três meses, missões umas atrás das outras, e a mulher nem uma fotografia me mandou!

         O sargento, com a sua voz autoritária, manda:

– Quem quiser ir à água, é para despachar; aqui em cima do pátio estamos mais seguros.

       Ao segundo dia plantados neste sítio longe de toda a civilização, e pouco depois da recolha de alguma água nas imediações da estrada, um barulho de vozes vindas da mata desperta a atenção da tropa. A meio da manhã, uma gritaria louca põe os nervos em riste e as armas apontadas em todas as direcções. Um numeroso grupo de pretos entra pela povoação dentro, uns a disparar canhangulos contra as posições dos pára-quedistas, outros com as catanas ao alto. Numa correria tresloucada, descarregam toda a sua raiva contra o que resta das casas, indiferentes às balas que atingem aquela horda de bandidos suicidas. É uma avalanche de inconscientes facínoras que, sendo muitos, uma grande quantidade consegue passar para o outro lado da povoação; parte deles dizimados ou esfacelados pelos rebentamentos de algumas granadas lançadas com precisão para cima dos maiores aglomerados de carne para canhão, e as balas, de pontas cortadas, fazem um furo descomunal nos corpos que estrebucham por entre as ruínas das casas.

...Sinais macabros... só as cabeças! (2).jpg

Ainda mal refeitos do espectacular morticínio, os que restam daquela horda de bestas embriagadas pelo ódio, e que conseguiram passar a barreiras de fogo, já organizam um bando com algumas centenas e voltam a atacar nas mesmas condições, deixando mais umas dezenas de corpos espalhados no meio das ruínas do campo desta batalha desmesurada e incrivelmente estúpida. Vista de cima do terraço, a estrada mais parece um campo de extermínio, com manchas de sangue e cadáveres com os braços e as pernas em posições dantescas, à mistura com as cabeças dos bailundos lambiscadas pelos mabecos e pelas hienas – senhores da selva. O panorama era tão desagradável que o pessoal procurava desviar os olhos para a mata, só para se livrar de sonhar com os fantasmas.

...Rio Mbridge - arranjem uma canoa....jpg

– Onde havíamos de vir parar... Fazer segurança a cabeças de preto, nunca esperei! Agora mais estes que vão ficar a cheirar mal – diz o Alfredo.

       O Serôdio, virado para o Santos, pergunta:

– Então casaste antes da tropa?

– Oh pá, quando casei já andava nos pára-quedistas a fazer o curso de combate. Antes dos pára-quedistas já tinha seis meses de tropa no Regimento de Infantaria de Évora. Comia-se muito mal no arre-macho, e o meu primo Faísca, que era pára-quedista de 1959, disse-me que aquilo era muito bom, uma tropa com nível e boa alimentação. Arranjou-me uma inscrição, fiz as provas com bons resultados e agora estou aqui.

– Mas porque casaste antes de saíres da tropa?

       O Santos responde com um sinal de saudade:

– Ela trabalhava comigo num restaurante de Loulé. O namoro até corria bem, mas ela engravidou e a família pressionou que era melhor casar. Também achei bem e casei. Só que os ataques às roças do café aqui no Norte de Angola começaram umas semanas depois, e cá vim parar.

        Já a tarde se faz sentir com o rigor do sol a aquecer os camuflados que queimam a pele, quando algumas latas de conserva servem para alimentar os corpos que ali estão expostos a vários perigos. Com tantos cadáveres espalhados no chão, não há apetites para saborear o almoço que vem tarde, mas o esforço exige alguma reposição de energias. Em retrospectiva das horas passadas neste pesadelo, mais parece que se visiona um filme daqueles onde os atacantes cercam os sitiados dentro das muralhas dos castelos, faltando apenas as escadas de assalto para serem iguais.

...Songo - a cozinha à portuguesa.jpg

       O resto do dia foi uma acalmia estranha, com alguns cães macaco a rondar os cadáveres. De noite, a presença de outros animais desejosos de comer a sua refeição – porque a fome toca a todos – ajudou na remoção daqueles corpos que já cheiravam mal e incomodavam as narinas dos pára-quedistas. O contacto rádio com uma Dornier que passou em voo baixo deu para avisar dos perigos das carnes em decomposição, razão por que a continuação do avanço até à Damba era urgente. E foi isso que o comandante do grupo deixou perceber:

– Avisar maior que só temos “morfos” para hoje.

E continuou agarrado ao rádio:

– Se não mandam tropa do exército para ajudar a enterrar os mortos, queimamos esta merda toda e seguimos para a Damba, esperando lá ordens das operações.

      E mais um dia despontou sem que os facínoras voltassem a atacar. O cheiro nauseabundo é insuportável, até os olhos começam a lacrimejar tal é o fedor! Do comando de operações não há sinal; nem uma ordem só para passar o tempo, mesmo que seja para mandar o pessoal pescar no rio Bridge, que nasce no morro virado a Sul. O soldado Marcelo já começa a temer os fantasmas:

– Meu sargento, aqueles olhos estão a dar cabo do meu pensamento. A cara do preto não deixa de me fitar, está sempre a olhar p’ra mim!

...A34.jpg

      Ao fim de três dias naquele ambiente de morte, o cheiro pestilento entranhava-se nas roupas e já mal se respirava! O tempo passa sem que haja sinais da tropa do exército, que deveria ter chegado à povoação três dias antes! Os brancos que em Maquela se dizia estarem em Quibocolo, já devem estar longe... talvez na Damba. A solução mais racional é continuar a abrir caminho até à Damba, onde há água para lavar estes camuflados encrostados de poeira com o suor dos corpos sofridos pelo desgaste, mas também fedorentos com o cheiro dos cadáveres putrefactos a causar náuseas de tirar o apetite.

...Vale do rio Mbridge - esconderijos inimigos....

       Mal o sol aparece por entre as árvores viradas aos picos do Béu e já o comandante do grupo manda preparar o equipamento para arrancar numa caminhada difícil e perigosa. Aqui, o perigo é mais grave, porque a peste ronda os nossos corpos. Mesmo em contravenção às regras, aqueles dezoito homens avançam em direcção à Damba, numa jornada de mais de 60 quilómetros de terra batida. Os facínoras do Holden Roberto podem não chatear, mas obrigam a cuidados redobrados para contornar algumas árvores derrubadas sobre a picada. Durante 14 horas de penosa marcha, alguns já começam a fraquejar, tal é a sua debilidade. Mas a tenacidade do corpo e a abnegação do espírito ajudam a fortalecer as pernas para um derradeiro esforço suplementar. Lá ao longe, na Damba, sempre há um ambiente muito mais civilizado: com tropas do Exército, alguma comida de panela, marmita e garfo; e também há mulheres... para passear a vista e sentir o cheiro a catinga! Às sete da tarde terminava esta jornada, que ficará na memória de todos como o pesadelo de dormir com os mortos das cabeças sem corpo!

                                

...A-Dias do Terror 3.jpg

        ...A-em vigilância.jpg

                 JURAMENTO

 

Juraste um voto constante

   de obediência e servidão

até à libertação do espírito.

 

A salvação está em saberes

defender a honra desse voto

   que te redime até à morte,

sem perderes o rumo norte.

 

Tens a luz da esperança

para venceres a adversidade

e com a pureza duma criança

vais encontrar a liberdade...

   com o empenho da tua vida

   vais lutar para a não perder

   por uma razão qualquer!

 

Jamais deixarás de saborear

tudo quanto a natureza oferta...

deita fora aquilo que não presta

   e o destino saberás desafiar.

 

         Joaquim Coelho, Combatente e repórter de guerra

In Livro: "O Despertard dos Combatentes" - Clássica Editora, 2005

(Premiado pela Academia Francesa em 2006)

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