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micaias

1961 - Reconquista do Norte de Angola

Avatar do autor Jota.Coelho, 24.03.25

Em ANGOLA… Repórter de Guerra

    A fotografia sempre me fascinou. Desde novo, acompanhava os turistas nas visitas à cidade e Caves do Vinho do Porto em Gaia, sempre com a máquina de fole AGFA; fiz cursos de Jornalismo no “SÉCULO” e repórter na Escola do Álvaro Torrão, quando estava na Força Aérea, Base Aérea 1, em 1960. O princípio de uma longa caminhada em Reportagens pelo mundo: Angola, Moçambique, Vietname, Kosovo, Bósnia, Líbano, Caxemira, Paquistão. Começamos em Angola...

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   Antes de entrar na preparação para o curso de Paraquedista em Maio de 1961, aproveitei 15 dias de férias para acompanhar a equipa de Jornalistas, chefiada pelo Artur Agostinho da RTP, com vista a fazer a cobertura do início da guerra em Angola. Fui aceite para fazer reportagem para o Século e lá seguimos para Luanda. No decorrer das reuniões e reportagens conheci o Joaquim Cabral (repórter do CITA – Centro de Informação e Turismo), o José Dionísio, o João Azevedo, o Horácio Caio, o jovem Fernando Farinha e dois directores de jornais.

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   O ambiente em Luanda era tenso e todos os dias havia mortos baleados nas ruas da baixa, tendo as viaturas do Exército o trabalho de fazer a recolha dos corpos, logo pela manhã. Num ambiente de grande inquietação e incertezas sobre o que se passava na região das fazendas do café, chegavam ao Aeroporto os aviões civis que conseguiam evacuar algumas famílias foragidas da região dos Dembos, parte delas sem saberem do paradeiro dos outros fazendeiros e trabalhadores do café que tinham fugido para o meio das matas, tentando escapar à sanha terrorista dos bandoleiros da UPA.

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   Como estava em curso a saída de uma coluna militar para a região dos ataques terroristas, fui integrado na coluna de viaturas com os Caçadores Especiais, percorrendo o itinerário desde o Cacuaco até Quibaxe, onde encontramos picadas obstruídas com grandes árvores, perigosos buracos encobertos com ramos e valas fundas. Em cada curva ou zona de arribas havia o perigo das emboscadas, de onde saíam dezenas de terroristas de catana em punho e alguns canhangulos, ao que as tropas respondiam com as armas que tinham, dizimando muitos dos que enfrentavam a tropa de peito aberto. Sendo os Caçadores Especiais a tropa mais em prontidão e com experiência das lutas durante a revolta dos trabalhadores do algodão para a Cotonang, mostraram grande aptidão para enfrentar os terroristas. Os dias de confrontos deixavam um cenário desolador e de morte, onde as hienas e mabecos davam sinais de fartos manjares durante a noite.

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    Com muito custo e perigos consequentes, chegamos a Quibaxe, após uma semana de sairmos de Luanda. Aproveitei a boleia do avião civil que levou provisões para o pessoal da coluna e voltei a Luanda, para regressar à Metrópole, enquanto a coluna dos Caçadores Especiais prosseguiu mais para o norte.

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...A-Coelho, O Chefe manda e tudo obedece....jpg

   Antes de partir para Portugal, estive alojado com os Paraquedistas na Fortaleza, local de aquartelamento das poucas dezenas que estavam em Angola desde 1960, chefiados pelo Tenente Manuel Claudino Martins Veríssimo, com uma boa secção de cães de guerra. Assim, fiquei ao corrente da organização de equipas de intervenção que iam embarcando para as zonas mais problemáticas, como Damba, 31 de Janeiro, Bembe, Negage…

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   Durante os últimos dias de Março, antes da Páscoa, participei no encontro de jornalistas e escritores angolanos e cabo-verdianos, na Casa do Porto, onde tive a sorte de encontrar gente culta e afectuosa; conversei e convivi com a Maria Ondina, professora franzina, aparentemente, reservada e bastante culta; enquanto esperamos para reunir com jornalistas numa casa virada para a Baía de Luanda; estivemos no Beileizão a saborear uns gelados… aí, o jornalista Ernesto Lara Filho, da revista Notícia, apresentou-me a irmã, poeta e médica Alda Lara, que havia chegado de Benguela com a Maria Ondina e logo entabulamos conversa sobre novas de Lisboa, e qual o meu papel em Angola! Trocamos ideias sobre os problemas da guerra, onde lhe disse estar em preparação nos para-quedistas e que, mais cedo ou mais tarde, iria fazer companhia aos camaradas que estavam em Angola desde 1960.

Joaquim Coelho

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Com os Caçadores Especiais e 6ªCC:

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...A.Todos para o chão... antes que seja tarde!.j

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...A-CEsp, Coluna de Caçadores Especiais, com Rep

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Terror em Angola -15 de Março de 1961

Avatar do autor Jota.Coelho, 15.03.25

Guerra em Angola - Foi há 64 anos

   No contexto de mais um aniversário da guerra do ultramar, deixamos alguns apontamentos importantes para melhor entendermos os contornos de uma guerra que transtornou a vida de milhões de portugueses, provocou centenas de milhares de traumatizados, deixou dezenas de estropiados, cerca de dez mil mortos e milhões de famílias numa onda de incertezas e vidas suspensas. Noventa por cento da população jovem masculina foi mobilizada para a Guerra do Ultramar.

   Apesar das perturbações na vida da população portuguesa do continente e das colónias, os gastos no esforço de guerra provocaram um grande desenvolvimento económico e social, com a modernização das infraestruturas e novas indústrias.

   Perante o mundo, Portugal ficou bem posicionado em termos de organização e inovação na economia de guerra, na indústria do armamento, na logística e administração da máquina de guerra em três zonas distintas e afastadas do continente. Sendo as tropas portuguesas amplamente admiradas pela sua eficácia, resistência e poder de adaptação às diversas circunstâncias do terreno e do clima.  

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- Revolta no Cassange

   As mais graves escaramuças entre tropa portuguesa e os agricultores de algodão da Baixa do Cassange começaram na sequência de vários protestos por causa dos fracos salários pagos aos trabalhadores; estes entraram em greve por tempo indeterminado, tendo sido violentamente atacados por efectivos da polícia e do Exército. As aldeias da população da zona foram queimadas pelas bombas lançadas por aviões e os tumultos alastraram às fazendas de algodão da companhia algodoeira Cotonang (empresa alemã e belga), culminando com a chacina de milhares de trabalhadores e seus familiares. Os indiciados cabecilhas da rebelião foram presos e fuzilados na região de Gabela. As tropas metropolitanas em serviço em Angola (cerca de 1.700) participaram na repressão aos manifestantes, colaborando com a polícia e tropas locais (cerca de 5.000 efectivos indígenas).  

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- Em Fevereiro de 1961: Assalto às prisões de Luanda

   Com os poucos efectivos de segurança ocupados na região do Cassange, a agitação foi-se agravando em Luanda onde os revoltosos assaltaram a Casa de Reclusão Militar, tendo morrido um cabo; pretendendo soltar os seus dirigentes presos nas cadeias, os bandidos assaltaram a esquadra de S. Paulo, da Polícia de Segurança Pública, e a repartições do estado. Na refrega, foram mortos sete agentes da polícia que caíram numa cilada dos revoltosos e, em consequência, os colonos armados caçaram e lincharam vários assaltantes. No dia do funeral dos polícias, os desacatos começaram nas ruas e acabaram nos muceques, onde os colonos mataram muitos indígenas.

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- Em 15 de Março de 1961 : Início do terror

   Tiveram início os massacres, organizados pela União das Populações de Angola (UPA de Holden Roberto de origem Bakongo) e por militares congoleses, onde foram mortos e mutilados alguns milhares de colonos brancos e empregados negros, nas fazendas do café; especialmente nas zonas dos Dembos, Negage, Úcua, Nambuangongo, Zala, Quitexe, Nova Caipenda, Ambriz, Maquela do Zombo, Madimba, Luvaca, Buela e outras. 

   Em consequência, mobilizaram-se meios terrestres e aéreos para socorrer os residentes nas zonas ameaçadas, muitos dos quais conseguiram chegar a Luanda com os familiares. A escassez de efectivos militares obrigou a um desmesurado esforço para chegar aos pontos mais necessitados. As autoridades perderam o controlo das vias de comunicação para toda a zona Norte, onde foram destruídas pontes, obstruídas as estradas com derrube de árvores e abertura de valas. Alguns grupos de camionistas que tentaram avançar na direcção dos Dembos, tiveram que regressar por encontrarem as estradas cortadas; outros mais afoitos, caíram em emboscadas e foram mortos a tiros de canhangulo e à catanada.

   Em 22 de Março, integrei uma equipa de jornalistas e repórteres organizada pela RTP para acompanhar as primeiras colunas de Caçadores Especiais da 6ª CC, que conseguiu chegar até Quibaxe. Daí, tomei um avião civil de reabastecimento que me levou a Luanda.

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   Na cidade organizaram-se milícias para tentar evitar que os bandidos da UPA se aproximassem com a sua sanha monstruosa. Já em Abril, os ataques traiçoeiros e selvagens, utilizando catanas e granadas, aproximavam-se de Luanda, passando pelo Úcua, onde foram assassinados mais europeus e os empregados bailundos. Defesa da barragem das Mabutas, que fornecia energia a Luanda corria sérios riscos de ser atacada; civis e militares organizaram-se para a sua defesa.

  Ainda em Março e nos meses seguintes de 1961, as tropas especiais (caçadores especiais e pára-quedistas) e alguns pelotões do Exército começaram a reconquistar povoações e fazendas, como Bembe, Maria Teresa, Quicabo, Damba, Madimba, Maquela do Zombo, 31 de Janeiro, Songo, Mucaba, Toto. Foi com alguma surpresa que vieram a constatar que o empenhamento das missões religiosas protestantes teve um grande peso na orgânica e no engajamento de indígenas para a rebelião, já que os diversos documentos encontrados nos locais das missões demonstravam a conivência entre os missionários oriundos de países como os Estados Unidos, Bélgica, Inglaterra e Países nórdicos, bastante próximos dos dirigentes da UPA, cuja sede é no Congo Belga. Numa operação na zona de Cuimba, encontrámos diversas fotografias com elementos da UPA acompanhados de representantes de organizações americanas; e, mais tarde, foram encontradas mais fotos em Madimba e Buela, onde estavam também dirigentes da UPA em festas religiosas e na sede de Leopoldeville.  

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– Envolvimento do Governo americano

   Pois, Kennedy deu luz verde para a guerra em Angola, apoiando o dirigente tribal Holden Roberto, bacongo da tribo do legendário Reino do Congo, cuja capital era Mbanza Congo, rebaptizada São Salvador do Congo pelos portugueses, que ali chegaram em 1482.

   A organização desenvolveu a actividade através de Manuel Sidney Barros Nekaka, enfermeiro na Missão Congregacional Americana do Dondi, no Huambo que, em 1942 se fixou em Leopoldville e, com apoio do pastor James Russel, organizou a União dos Povos do Norte de Angola (UPNA), surgida em 1954 e dois anos depois convertida na União dos Povos de Angola (UPA). A trajectória política do clã Nekaka foi sempre acompanhada pelos americanos.

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   Holden Roberto foi criado em Leopoldville, onde foi baptizado pela Igreja Baptista e, em homenagem ao missionário americano que o apadrinhou, adoptou o nome de Holden Carson Graham. Usou ainda outros nomes como Joy Gilmore em cartas que enviou a Salazar, o que, segundo o anedotário angolano, levou o ditador a comentar: “Eles usam vários nomes para parecerem muitos”. Durante oito anos, Holden foi funcionário na administração colonial belga, mais interessado em futebol do que em política, mas, não podendo ser Matateu, aderiu ao movimento do tio em 1956. A sede da UPA no porto de Matadi, Congo-Brazaville, era frequentada por marinheiros negros americanos que introduziam material de propaganda para Angola e um desses marítimos, George Barnett, fundou no Lobito a primeira célula do movimento em Angola.

   Mais tarde, as missões protestantes americanas em Angola tornaram-se também células clandestinas da UPA e, graças aos missionários, Holden estabeleceu ligações com o American Committee on Africa, presidido por Eleanor Roosevelt, viúva do presidente Franklin Roosevelt e activistas dos direitos cívicos como o bispo Homer Jack, da Igreja Unida América e Canadá, que o apresentou ao então senador John Kennedy em Setembro de 1959. “Estive duas horas a explicar a Kennedy o sentido da nossa luta em Angola. Ele disse-me que os Estados Unidos tinham uma tradição anticolonial e não podiam continuar a apoiar o regime de escravatura em Angola. Concordámos que era preciso fazer alguma coisa para evitar que os comunistas tomassem conta do movimento de libertação de Angola”, escreveu mais tarde Holden.

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   As chatices de Salazar começaram a 20 de Janeiro de 1961, quando Kennedy entrou na Casa Branca e dois dias depois o capitão Henrique Galvão se apoderou do paquete Santa Maria e ameaçou rumar a Luanda.
Kennedy estava convencido de que o nacionalismo era a melhor alternativa ao comunismo para os povos do Terceiro Mundo e, além do apoio técnico, incluindo envio de agentes americanos para as bases da UPA, Holden Roberto foi incluído na folha de pagamentos da CIA em 1961 recebendo $6.000 anuais, o que foi posteriormente aumentado para $10.000 e depois para $25.000/ano.

   Marcello Mathias, ministro dos Negócios Estrangeiros, escreveu ao seu homólogo americano afirmando “ter razões para considerar os contactos da embaixada americana em Leopoldville com Holden Roberto como suspeitos e inamistosos para Portugal”.

   A 4 de Março de 1961, o embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, C. Burke Elbrick, informou o ministro da Defesa, general Botelho Moniz, da decisão da UPA de desencadear ataques em Angola, o Governo português menosprezou a informação.

   Na madrugada de 15 de Março, milhares de bakongos pegaram nas catanas e massacraram mais de 1.000 brancos e 8.000 trabalhadores no Norte de Angola. Os brancos improvisaram milícias, que responderam também com violências  e começou uma guerra que se prolongou por 13 anos, com responsabilidade moral de quem a decidiu ou provocou.

   Em Luanda, os brancos atiraram o carro do cônsul americano à baía, enquanto em Lisboa, em 21 de Março, houve manifestações frente à embaixada. Apesar dos protestos, o secretário de Estado Dean Rusk visitou Lisboa em 27 de Março com uma proposta de Kennedy, a independência das colónias sob a forma de autodeterminação.

   O plano dos EUA, apresentado em Agosto de 1963 pelo vice-secretário de Estado George Ball, esbarrou na inflexibilidade da resposta de Salazar: “Portugal não está à venda”. Em 1962, a CIA previa a derrota militar portuguesa em África, mas enganou-se.

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Recolha e adaptação de Joaquim Coelho, Repórter de guerra

VER:   https://picadas2.blogs.sapo.pt

Quem Comanda... sou eu. - Desobediência!

Avatar do autor Jota.Coelho, 01.12.23

A Calma perante o Perigo foi a Salvação

    A serenidade e a calma são as melhores armas para nos protegerem em circunstâncias complicadas da vida. Porque as decisões ponderadas são as mais assertivas.

    O episódio ocorrido numa emboscada dos guerrilheiros “frelimos” a um grupo de combate composto por cerca de 40 Paraquedistas, após o assalto e neutralização de um acampamento inimigo situado a sul de Nangade-Cabo Delgado, demonstra as complicadas decisões de comando em situações extremamente perigosas. Conforme descrito no “documentário” da Camões TV-Canadá, que pode ser visto clicando na imagem abaixo, a experiência do sargento Coelho, em situações de guerra, em Angola, foi fundamental para evitar graves danos nas nossas tropas.

Lamentavelmente, a Camões TV - Canadá desativou os links para os episódios sobre a Guerra Colonial!

Parte do tema está nos textos do Blog.......Camões TV-Ep.25-Moçambique.jpg

    “A desobediência às ordens do comandante, frente ao inimigo, pode ser punida com a morte do militar desobediente, por fuzilamento” – código de justiça militar antigo. Pois, foi esta situação que esteve iminente, caso o desfecho não fosse abortado. Mas a retaliação veio mais tarde.

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         DESOBEDIÊNCIA ACERTADA

    Era mais uma missão da terceira semana em acções de reconhecimento e limpeza na zona operacional de Napota, uns quilómetros a Sul de Mutamba dos Macondes, onde foram recolhidos cerca de trezentos e vinte habitantes e aprisionados sete guerrilheiros. Juntamente com meia dúzia de armas, toda aquela gente foi entregue aos cuidados da companhia de Engenharia de Nangade.

Parecia uma operação rotineira, por entre os trilhos usados pelos guerrilheiros da Frelimo para reabastecerem as suas bases do vale de Miteda até Nangololo. Por coincidência ou por perícia, até agora, nunca houve recontros armados nem sinais de emboscadas, apesar de termos avistado duas patrulhas na recolha de água do mesmo poço, único num raio de dez quilómetros, onde também nos servimos da preciosa água.

    Desta vez, assaltámos as instalações de uma antiga serração de madeiras transformada em base de apoio logístico e administrativo aos homens da Frelimo. Bem escondida dentro da mata, foi detectada por acaso. Depois de tomados os três trilhos de acesso e uma picada obstruída com várias árvores derrubadas, as três secções do primeiro pelotão, reforçado com mais uma secção, tomaram o controlo das entradas e saídas, evitando a fuga dos frelimos; o pessoal do terceiro pelotão tomou de assalto todas as instalações e palhotas e aprisionaram um secretário e três guerrilheiros, bem como nove habitantes do apoio logístico – mulheres e crianças. Não foi disparado um único tiro, porque todos eles levantaram os braços a pedir clemência! Mas, logo vimos vários guerrilheiros armados que se escapuliam por detrás das palhotas para a mata. Abrimos fogo na sua direcção… Estavam muito assustados pela surpresa do assalto. Foram recolhidas duas armas automáticas e alguns utensílios de trabalho nas machambas. Como de costume, as mulheres e crianças tinham que nos acompanhar.

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    Sem perder tempo, fez-se um interrogatório preliminar aos quatro prisioneiros mais importantes, mas estes mostraram pouca vontade de colaborar, apesar da ameaça do cinturão do cabo Martins. Só o secretário, que não era maconde, deu algumas informações que permitiram encontrar mais dois pequenos redutos de apoio logístico à guerrilha.

Por acordo entre os comandantes de pelotão e secção, os mais de quarenta combatentes dividiram-se em dois grupos de combate autónomos, ficando um deles no terreno para procurar e desmantelar os ditos acampamentos da Frelimo, enquanto o outro grupo conduzia os prisioneiros e o respectivo material para o nosso acampamento em Napota.

    Aproximava-se o meio-dia quando partimos de regresso com as definidas missões. O meu grupo, avançou para um dos objectivos indicados pelo prisioneiro, localizado a norte da ribeira de Munga, cortando o caminho por entre brenhas e capim, de modo a evitar possíveis emboscadas nos trilhos. Na proximidade das sanzalas foi feito o ponto da situação e logo passámos ao assalto…  ficámos surpreendidos com o resultado da nossa acção: mais três guerrilheiros, seis mulheres e cinco homens idosos foram aprisionados. Os guerrilheiros não tinham as armas junto deles, pois estavam a reabastecer-se de alimentos, e não ofereceram resistência. Até já duvidávamos de tanta facilidade numa zona considerada perigosa para as nossas tropas.

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    O sol, que atestava forte em cima das nossas cabeças, e a sede, sempre difícil de controlar, retiravam alguma lucidez ao comportamento do pessoal. Com a ansiedade a aconselhar o percurso mais arborizado e mais curto em direcção ao nosso acampamento provisório, seguimos um trilho que nos levou até ao vale com bastante vegetação. Alguns elementos da equipa do cabo Santos, que seguiam na frente da coluna, perceberam que os trilhos estavam muito desgastados pelo movimento de pessoas. O sargento Coelho preveniu o seu pessoal para as possíveis consequências por entrarmos no vale sem grandes condições de visibilidade, onde os guerrilheiros poderiam surpreender e atingir a nossa tropa. A estranha passividade demonstrada depois da destruição dos seus redutos começava a inquietar parte do grupo. Os prisioneiros que nos acompanhavam, atados com cordas, também davam indícios de agitação. Entre cada cinco dos nossos combatentes seguia um inimigo aprisionado – situação que nos causava algum desconforto e receio. Mas tudo parecia demasiado fácil e normal naquela caravana.

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    O alferes estava radiante com a sua primeira missão como responsável pela orgânica do assalto ao acampamento inimigo! Essa alegria depressa esmoreceu, porque a inexperiência aliada à excessiva confiança só pode redundar em fracasso, quando não em fatalidade… e não demorou uma hora para acontecer o inesperado desenlace; sem nos darmos conta, ficámos encurralados no fundo do vale, à mercê dos tiros das armas inimigas. Momentos antes de entrarmos no vale, o sargento Coelho havia sugerido ao alferes uma alternativa mais segura… seguir a corta-mato antes do morro, evitando contorná-lo pelo vale!

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    No fundo do vale, a vegetação do lado direito era densa e verde e com árvores bem entroncadas; mas, do lado esquerdo só havia arbustos e capim entremeado por uma brenha impenetrável… e foi daí que saíram os primeiros tiros de armas inimigas. Em poucos segundos instalou-se a confusão entre os prisioneiros que tentavam escapulir-se. Enquanto os soldados se abrigavam das balas inimigas, os três guerrilheiros tentaram a fuga por entre as árvores da encosta do lado direito; as folhas que iam caindo sobre as nossas cabeças já nos diziam por onde passavam as balas. A equipa do cabo Santos e a secção do Vicente, tomaram posição para se defenderem de eventuais guerrilheiros que viessem da frente. Outros abrigaram-se junto das pedras em forma de muro que estavam no lado direito do trilho.

    Precipitadamente, o alferes Arménio deu ordens a uma das equipas do sargento Coelho para perseguir os três foragidos que se escapavam mata dentro. Apercebendo-se do efeito do impacto das balas nos troncos das árvores e vendo a poeira que faziam ali mesmo na sua frente, por onde o alferes ordenava a perseguição aos foragidos, o sargento Coelho contrariou aquela ordem, indicando aos seus homens para flagelarem os fugitivos mas, continuando a proteger-se junto das pedras. Olhando o alferes de frente, protestou energicamente contra uma ordem inadequada e que poderia ter como resultado a morte de alguns dos seus comandados. Não fossem os esporádicos tiros das armas, tudo parecia serenar quando o alferes virou a AR-10 na direcção do sargento Coelho e, numa posição ameaçadora, sentenciou:

 - Aqui, quem manda sou eu e quem desobedecer leva já um tiro! Mande o seu pessoal subir o morro e flagelar os inimigos…

    Por instantes, os que presenciavam a caricata cena temeram que o alferes cometesse alguma loucura, levando a situação para um desfecho dramático, uma vez que denotava um total descontrolo emocional – já não bastava a posição crítica em que nos encontrávamos, debaixo de fogo inimigo, aparecia agora mais um problema de pontos de vista antagónicos, quando estavam em perigo mais de três dezenas de combatentes.

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    O sargento Coelho, já veterano da guerra em Angola, embora em apuros, manteve a calma, deixou-se escorregar no capim e encurtar a distância que o separava do alferes. Com um golpe certeiro e eficaz, bateu com o coice da sua arma na mão direita do alferes, atirando-lhe a AR-10 por terra. Num ápice, enquanto o sargento Coelho deitou a mão à arma, dois dos soldados mais próximos manietaram o alferes que, ao ver-se impossibilitado de reagir, proferiu algumas palavras de ameaça, mas submeteu-se à força dos músculos. Enquanto isso, as armas inimigas não paravam de matraquear e os três turras deram à perna… sem ninguém lhes por mais a vista em cima.

    Resoluto e apoiado pelos homens do pelotão e pelo seu adjunto cabo Martinho, o sargento Coelho ordenou ao cabo Santos que atasse uma corda às mãos do alferes Arménio e que tomasse conta dele; deu instruções para as equipas da retaguarda tentarem subir ao morro e flagelar os guerrilheiros. O sargento Figueira concordou com o Coelho nessa tentativa para desalojar os frelimos daquela posição de domínio sobre o terreno, por ser a única forma de sairmos dali sem sofrer baixas.

    Tantos e inesperados acontecimentos ocorridos em poucos minutos, obrigaram a uma pausa para organizar a defesa e encontrar maneira de sair daquele buraco sob o fogo inimigo. Rastejando mais para trás, o sargento Figueira, com os seus, incumbiu-se de desalojar os guerrilheiros, os quais se viram obrigados a mudar de posição e melhorarem a sua defesa. Esta manobra deu oportunidade para a secção do sargento Vicente avançar umas vantajosas dezenas de metros e tomar posição em local propício para atirar sobre o morro onde estavam os guerrilheiros. Assim, num esforço conjugado entre os homens da frente e os da retaguarda, a coluna pode correr com os frelimos e reorganizar-se para continuar a marcha até ao acampamento. Aqueles quarenta minutos pareceram horas, tal a inquietação que nos afrontava perigosamente. 

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    Cabisbaixo e despido do poder de comando, o alferes não perdeu a postura perante a determinação do resoluto sargento Coelho. Mas, em tom de aviso, sempre foi dizendo que a desobediência é caso muito grave, sujeito a “conselho de guerra”, quando cometida em frente ao inimigo. Nas duas horas que demorou o resto do percurso, ninguém se preocupou com as consequências do desentendimento entre aqueles dois chefes, apesar das palavras ameaçadoras do alferes; porque o sargento Coelho apenas concentrava a atenção na forma de conduzir o grupo de homens até ao acampamento de Napota.

    Para grande parte daqueles combatentes, este episódio só veio atestar a filosofia do sargento Coelho perante esta guerra:

    "Aqui, no meio do mato, o poder está nas nossas mãos. Quando embrenhados na mata de armas na mão e sujeitos aos perigos da guerra, só pudemos contar connosco; como tal, a nossa sobrevivência depende das nossas decisões e determinação em as concretizar; e os nossos actos dependem apenas da nossa consciência, porque estamos longe dos mandantes e dos governantes.”

    A meio da tarde, entrámos no reduto onde as palhotas servem de arrecadação dos alimentos e do material de apoio; as viaturas Berliets aguardam o fim desta nossa intervenção de reconhecimento e limpeza da zona. Entretanto, até ao regresso a Mueda, as trincheiras e abrigos subterrâneos conservam a frescura para acolher os combatentes.

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    Ciente das responsabilidades que assumiu, o sargento Coelho mandou desatar as mãos do alferes, entregou-lhe a arma (sem carregador) e acompanhou-o até junto do comandante de companhia, capitão Mascarenhas Pessoa, a quem deu conhecimento provisório do ocorrido. O resto do pessoal tratou das formalidades habituais quanto à recolha de população, entregando-a aos cuidados da guarda à palhota onde os mesmos pernoitam até serem entregues no quartel de Nangade. O enfermeiro inteirou-se dessas pessoas e tratou de curar algumas feridas bem visíveis nos pés dos mais velhos; por sinal, estavam a sofrer com a lepra que lhes ruía as carnes, um grande flagelo que causa danos irreversíveis em parte da população.

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    O comandante da companhia reuniu todos os oficiais dentro da palhota do posto de rádio. De semblante carregado, quis saber pormenores e analisar as consequências da desobediência do sargento Coelho. Cá fora, as praças rondavam o local da reunião e mostravam a sua inquietação por temerem que o sargento Coelho fosse alvo de alguma punição. Pois, estavam cientes de que aquele acto de desobediência foi providencial para evitar uma tragédia sobre grande parte dos homens protagonistas daquela missão, com a perda de vidas. Agora, mais a frio, compreendiam que a situação era verdadeiramente complicada para o sargento. Foram poucos os que quiseram pronunciar-se sobre assunto tão melindroso. E todos aceitaram uma acareação entre o sargento Coelho e o alferes Arménio, os dois protagonistas daquele facto inadequado dentro da hierarquia duma tropa especial. Por sugestão do capitão e com a concordância dos presentes, não haveria qualquer acção disciplinar e tudo ficaria encerrado ali mesmo. Tal decisão foi bem aceite entre o restante pessoal da companhia. Aparentemente, parecia que tudo estava sanado, quanto à vertente disciplinar; mas, há sempre alguém incapaz de conter a sua raiva… que se veio a manifestar mais tarde, e com severidade desmesurada do tenente Castro Gonçalves.

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    As missões continuaram nos dias seguintes, mas outras situações bem mais dramáticas e com perdas de vidas se abateram sobre aquele grupo de homens que apenas queriam cumprir um dever que lhes impunham. Nem sempre entendemos as razões que a desobediência desconhece e que o bom senso determina. 

       Regresso a Mueda, 45 dias depois da saída... 

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CONSEQUÊNCIAS:

    Ora, dois meses depois deste acontecimento, a companhia de Paraquedistas foi destacada para assaltar um acampamento inimigo próximo do Vale de Miteda, sob o comando do tenente Castro Gonçalves; o sargento Coelho não concordou com a determinação de liquidar todas as pessoas que fossem encontradas, incluindo mulheres, velhos e crianças. Mais uma vez, considerado desobediência às ordens, pelo que foi sujeito a Processo disciplinar e aprisionado num Fortim da Ilha do Ivo, até ser aceite o "Inquérito" mandado instaurar pelo Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, a pedido do sargento.

    O tenente da FAP Silva e Sousa, chefe da secção de Justiça, pediu voluntários para testemunhar, tendo aceite 40 dos 156 que se apresentaram a favor do sargento Coelho; pois, o sargento estava considerado um bom comandante operacional, pessoa prestável à generalidade dos seus camaradas de armas, distinto repórter de guerra e mereceu esse reconhecimneto por parte dos que testemunharam a seu respeito.

    Durante o "Inquérito militar", o sargento Coelho foi incumbido de reabastecer o pessoal da Companhia em operações no norte de Moçambique - missão que cumpriu a contento de todos, com esmero na qualidade da alimentração e prontidão no reabastecimento de rações de combate com boa regularidade, bem como apoio logístico e na recuperação de feridos em combate.

    Seis meses depois, o sargento Coelho foi chamado ao gabinete do comandante tenente-coronel Argentino Seixas e, na presença dos capitão-capelão Martins, tenente Castro Gonçalves, chefe da secretaria do Comando major Alegria Ribeiro; o tenente Silva e Sousa, chefe da Secção de Justiça, leu o Relatória das conclusões do "Inquérito", considerando o sargento Coelho ilibado de culpas, pelo fracasso da dita operação militar. O Comandante e o Capelão Martins abraçaram o sargento Coelho, eufóricos por se ter evitado um "conselho de Guerra" para julgar tal processo.

Assim, o sargento Coelho voltou à sua vida normal de operacional, repórter e professor dos militares que se propunham ir a exames no liceu Pero de Anaia, da Beira, onde algumas dezenas completaram os 1º e 2º cíclos liceais, melhorando as suas capacidades de emprego quando regressassem à vida civil.

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FORTIM DA ILHA DO IBO – PRISÃO POLÍTICA

     Ao ver a imagem deste fortim não pude conter a emoção que me tocou fundo por lá ter estado detido durante uma semana no ano de 1967. No decorrer de uma missão operacional a Sul de Antadora-Diaca, depois de ouvir as instruções do novo comandante de companhia: “vamos assaltar um acampamento onde pernoitam elementos da Frelimo, onde vivem famílias que os apoiam na logística, e tudo que mexer é para abater. Não vamos fazer prisioneiros, mesmo da população civil”. Como é sabido, os Pára-quedistas eram rigorosos e eficazes no cumprimento das missões de combate, mas não dizimavam população civil, especialmente mulheres e crianças.

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    Os murmúrios de descontentamento ouviram-se entre o pessoal da companhia; isso deu-me o ânimo suficiente para organizar o boicote à conclusão de tal assalto. Uma noite de chuva intensa ajudou a retardar o andamento da coluna que deveria estar nas proximidades do dito acampamento pela madrugada. Estando eu a recuperar dum ferimento sofrido na coxa esquerda, aquando duma emboscada no Vale de Miteda, por causa da fricção da farda molhada, comecei a ressentir-me e originei diversas paragens para ser socorrido pelo enfermeiro Armindo. Chegados ao local apropriado para preparar o assalto, a ribeira do Nango, afluente do rio Muera, estava caudalosa e impedia a passagem para o outro lado, onde estava localizado o dito acampamento. Vimos muitos sinais da presença de pessoas, mas nada mais foi encontrado.

    A primeira missão do Tenente resultou num fracasso operacional. Fui acusado e ameaçado com processo disciplinar e tribunal de guerra.

   Regressados a Diaca, acantonámos no Sagal onde estava o médico da companhia que me receitou diversos medicamentos para minorar a infecção que tinha na perna. Enquanto recuperava, outras missões foram levadas a cabo pela companhia, sem a minha presença.

    Após dois dias do regresso ao BCP31-Beira, fui informado pelo oficial de justiça (tenente da FAP Silva e Sousa, mais tarde meu camarada na Siderurgia Nacional) que tinha uma grave acusação com vista à minha detenção até que fosse concluído o processo disciplinar. Aproveitei os meus conhecimentos das Leis militares para elaborar uma exposição dirigida ao Chefe de Estado-Maior da Força Aérea, tendo entregue uma cópia ao comando do Batalhão, mas só o fiz no dia seguinte ao registo da carta nos correios da Beira. Pois, corria o risco da carta ser interceptada antes de seguir ao destinatário.

Dois dias depois, pelas dez horas da noite fui detido no meu local de alojamento provisório (arrecadação de material de guerra do batalhão de que era responsável), onde trabalhava em fotografia. Pelas quatro da manhã embarquei num avião Nordatlas com destino a Porto Amélia, com escala em Nacala, escoltado por um oficial pára-quedista e dois agentes da PIDE; seguimos de barco até um fortim-prisão na ilha do Ibo, onde fiquei sozinho; deixaram uma manta, que me serviu de protecção durante as noites – transportei comigo uma cama portátil que, meses antes, tinha comprado a um soldado americano que entrevistei na Rodésia do Sul (era mercenário, veterano do Vietnam).

    Não havia água, mas saltava o muro e tinha o mar; pelo meio-dia, tinha a visita de uma patrulha do Exército, deslocada em Unimog, que deixava um prato com alimentos quentes, um cantil de água e uma ração de combate para três dias! Fazia meditação e escrevia num caderno escolar – pensava na vida… com esperança.

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    Por outros casos antecedentes, receei pela minha vida. E não fora a boa aceitação da exposição que enderecei ao Chefe de Estado-Maior da Força Aérea, que deu origem a um longo e complicado processo de averiguações, onde cerca de 40 testemunhas, escolhidas dum grupo de mais de 150 que se dispuseram a defender-me, não sei o que teria sido o futuro da minha vida.

Joaquim Coelho

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NOTA:

Narrativa inscrita no Livro "Estilhaços" - Edições Sentinela

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Documentários da Guerra do Ultramar - 2ª. Série

Avatar do autor Jota.Coelho, 28.11.23

Lembrar para não Esquecer

     Os testemunhos de Combatentes que participaram nas guerras ultramarinas são uma prova indesmentível do esforço, do sofrimento, das angústias, das dificuldades que atingiram mais de um milhãos de homens valentes, que responderam ao chamamento da Pátria. Homenagem aos resistentes, em memória dos que partiram para o além.

     A equipa de reportagem e produção de documentários para televisão, dirigida por Paulo Fajardo, concluíu o projecto da Camões TV - Canadá, apresentou os documentários recolhidos em entrevistas directas aos Combatentes, as quais espelham a realidade de todos quantos sofreram os efeitos das guerras, em condições de dificuldade e perigos. Mau grado o desprezo dos governantes, os Combatentes desmobilizados deram grande impulso ao desenvolvemento do Portugal moderno. 

     Com a colaboração do Movimento Cívico de Antigos Combatentes, do repórter de guerra e combatente Joaquim Coelho, do grupo Facebook "Picadas de Cabo Delgado" e do Combatente Duilio Caleca e outros, o sucesso foi tal que, as audiências ultrapassaram os cinco milhões de espectadores por episódio.

Caros Leitores, lamentamos que a TV Camões tenha desativado os links de acesso aos Episódios em que participamos! Mas podem ler parte da história... nos textos publicados no Blog

Episódio 13:....Camões TV-Ep.13-Guiné.jpg

Episódio 14:....Camões TV-Ep.14-Guiné.jpg

Episódio 15:....Camões TV-Ep.15-Moçambique.jpg

Episódio 16:....Camões TV-Ep.16-Guiné.jpg

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Episódio 18:....Camões TV-Ep.18-Angola.jpg

Episódio 19: ....Camões TV-Ep.19-Angola.jpg

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Tormentos da Guerra em Angola

Avatar do autor Jota.Coelho, 23.11.23

Angola em Combustão e os militares em reocupação

    Passada a primeira onda das terriveis barbaridsades protagonizadas pelos bandoleiros da UPA, onde o terror das matanças não poupou ninguém, a tropa começou a entranhar-se nas terras do Norte de Angola, tentado abrir caminho na busca das populações das Fazendas do café que fugiram para o mato.

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    A progressão das colunas militares era demorada e dificultada pelas grandes quantidades de árvores atravessadas nas picadas em toda a região dos Dembos. Foi numa das primeiras que entrei na confusão, acompanhando os Caçadores Especiais, onde fiz a minha primeira "Reportagem de guerra", logo na primeira semana de Abril de 1961. Ora, entrei no ambiente da guerra sem ter concluido a formação de combatente.

    Meses maIs tarde, regressei a Angola e integrei uma companhia de Pára-quedistas do BCP21, sendo deslocado para São Salvador do Congo, onde a companhia tinha por missão fazer o reconhecimneto das povoações consideradas abandonadas pelos brancos e tentar encontrar os que escaparam à chacina. Assim, fomos distribuidos em grupos de 12 a 18 pára-quedistas, seguindo cada um o seu itinerário devidamente definido pelos chefes militares. O meu grupo, chefiado pelo sargento Assis, dirigiu-se de Maquela do Zombo para Quibocolo; uma povoação situada a meio caminho entre Maquela e a Damba.

Clik na Imagem para ver Testemunho:

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Quibocolo – ATAQUES EM MASSA

        A chegada a Quibocolo foi uma surpresa aterradora. Logo na entrada da estrada que vem de Maquela do Zombo, há cabeças cortadas à catanada espalhadas pelo chão. São dos bailundos que ficaram para ajudar os brancos que tiveram de fugir para a Damba.

– Mas que selvajaria – diz o Alfredo!

Logo o Quaresma atalhou:

– Os turras do Holden Roberto são mesmo sanguinários para com as outras etnias de pretos. Até parece que nem são angolanos.

– Olha Quaresma, dizem que são bacongos do Congo Belga, e até andam com alguns missionários dos evangélicos.

        As duas secções de pára-quedistas organizam-se em grupos de cinco para bater as casas e palhotas destruídas. Alguns sacos de terra são colocados em cima do terraço de uma das casas ainda seguras, a que se juntam uns blocos de adobe para servir de parapeito e abrigo contra os atacantes. Ficar em abrigos no chão é o suicídio, atendendo à grande quantidade de terroristas que costumam atacar.

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        Chegada a noite instalam-se os primeiros pára-quedistas. As granadas e as provisões são dispostas ao lado dos abrigos, enquanto o sargento Assis dá as últimas instruções para a defesa daquele posto: “Muita atenção ao gasto de munições; não quero que nos aconteça o mesmo que aconteceu à malta que esteve no Bungo, se não fossem reabastecidos pela Dornier, ao fim de três ataques já estavam a ficar sem munições.”

       Durante a noite, ouve-se um murmúrio longínquo cujo alarido indicia movimentos de terroristas nas imediações. A alvorada traz alguma inquietação, mas não se esperam surpresas; as experiências dos dias anteriores dão alguma confiança ao grupo. Esta calma aparente manteve-se durante todo o dia, de vez em quando quebrada pelo chilreio das aves no meio da mata. E o Alfredo olha fixamente para a floresta, e pergunta ao Serôdio:

– Quando foste cagar ao pé daqueles tufos verdes, não viste se havia lá água?

– Debaixo daquelas mangueiras nasce um pequeno fio de água.

O Alfredo sorri, puxa do cantil e bebe umas boas goladas da última reserva. Limpa a boca, calmamente e dispara:

– Eh malta, temos água ali ao lado daquela plantação de feijões! – Virado para o sargento, diz:

– Meu sargento, é melhor enchermos os cantis enquanto isto está calmo.

– Pessoal, em grupos de três, vão reabastecer-se de água.

        Um a um, descem do posto de vigia, passam pelo meio dos escombros e das cabeças espalhadas no caminho, pedindo aos céus que chova para abafar o cheiro que invade o ambiente. Cem metros abaixo, encontram a água a correr por entre os feijoeiros.

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     Partilham a frescura da água e a sombra das mangueiras que os protegem dos raios solares, envoltos no silêncio da mata, que nem pensam na guerra. O Santos, que parece estar noutras latitudes, interrompe a quietude do Serôdio e diz:

– Como estará o meu puto, agora com seis meses? Já ando nesta merda há mais de três meses, missões umas atrás das outras, e a mulher nem uma fotografia me mandou!

         O sargento, com a sua voz autoritária, manda:

– Quem quiser ir à água, é para despachar; aqui em cima do pátio estamos mais seguros.

       Ao segundo dia plantados neste sítio longe de toda a civilização, e pouco depois da recolha de alguma água nas imediações da estrada, um barulho de vozes vindas da mata desperta a atenção da tropa. A meio da manhã, uma gritaria louca põe os nervos em riste e as armas apontadas em todas as direcções. Um numeroso grupo de pretos entra pela povoação dentro, uns a disparar canhangulos contra as posições dos pára-quedistas, outros com as catanas ao alto. Numa correria tresloucada, descarregam toda a sua raiva contra o que resta das casas, indiferentes às balas que atingem aquela horda de bandidos suicidas. É uma avalanche de inconscientes facínoras que, sendo muitos, uma grande quantidade consegue passar para o outro lado da povoação; parte deles dizimados ou esfacelados pelos rebentamentos de algumas granadas lançadas com precisão para cima dos maiores aglomerados de carne para canhão, e as balas, de pontas cortadas, fazem um furo descomunal nos corpos que estrebucham por entre as ruínas das casas.

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Ainda mal refeitos do espectacular morticínio, os que restam daquela horda de bestas embriagadas pelo ódio, e que conseguiram passar a barreiras de fogo, já organizam um bando com algumas centenas e voltam a atacar nas mesmas condições, deixando mais umas dezenas de corpos espalhados no meio das ruínas do campo desta batalha desmesurada e incrivelmente estúpida. Vista de cima do terraço, a estrada mais parece um campo de extermínio, com manchas de sangue e cadáveres com os braços e as pernas em posições dantescas, à mistura com as cabeças dos bailundos lambiscadas pelos mabecos e pelas hienas – senhores da selva. O panorama era tão desagradável que o pessoal procurava desviar os olhos para a mata, só para se livrar de sonhar com os fantasmas.

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– Onde havíamos de vir parar... Fazer segurança a cabeças de preto, nunca esperei! Agora mais estes que vão ficar a cheirar mal – diz o Alfredo.

       O Serôdio, virado para o Santos, pergunta:

– Então casaste antes da tropa?

– Oh pá, quando casei já andava nos pára-quedistas a fazer o curso de combate. Antes dos pára-quedistas já tinha seis meses de tropa no Regimento de Infantaria de Évora. Comia-se muito mal no arre-macho, e o meu primo Faísca, que era pára-quedista de 1959, disse-me que aquilo era muito bom, uma tropa com nível e boa alimentação. Arranjou-me uma inscrição, fiz as provas com bons resultados e agora estou aqui.

– Mas porque casaste antes de saíres da tropa?

       O Santos responde com um sinal de saudade:

– Ela trabalhava comigo num restaurante de Loulé. O namoro até corria bem, mas ela engravidou e a família pressionou que era melhor casar. Também achei bem e casei. Só que os ataques às roças do café aqui no Norte de Angola começaram umas semanas depois, e cá vim parar.

        Já a tarde se faz sentir com o rigor do sol a aquecer os camuflados que queimam a pele, quando algumas latas de conserva servem para alimentar os corpos que ali estão expostos a vários perigos. Com tantos cadáveres espalhados no chão, não há apetites para saborear o almoço que vem tarde, mas o esforço exige alguma reposição de energias. Em retrospectiva das horas passadas neste pesadelo, mais parece que se visiona um filme daqueles onde os atacantes cercam os sitiados dentro das muralhas dos castelos, faltando apenas as escadas de assalto para serem iguais.

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       O resto do dia foi uma acalmia estranha, com alguns cães macaco a rondar os cadáveres. De noite, a presença de outros animais desejosos de comer a sua refeição – porque a fome toca a todos – ajudou na remoção daqueles corpos que já cheiravam mal e incomodavam as narinas dos pára-quedistas. O contacto rádio com uma Dornier que passou em voo baixo deu para avisar dos perigos das carnes em decomposição, razão por que a continuação do avanço até à Damba era urgente. E foi isso que o comandante do grupo deixou perceber:

– Avisar maior que só temos “morfos” para hoje.

E continuou agarrado ao rádio:

– Se não mandam tropa do exército para ajudar a enterrar os mortos, queimamos esta merda toda e seguimos para a Damba, esperando lá ordens das operações.

      E mais um dia despontou sem que os facínoras voltassem a atacar. O cheiro nauseabundo é insuportável, até os olhos começam a lacrimejar tal é o fedor! Do comando de operações não há sinal; nem uma ordem só para passar o tempo, mesmo que seja para mandar o pessoal pescar no rio Bridge, que nasce no morro virado a Sul. O soldado Marcelo já começa a temer os fantasmas:

– Meu sargento, aqueles olhos estão a dar cabo do meu pensamento. A cara do preto não deixa de me fitar, está sempre a olhar p’ra mim!

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      Ao fim de três dias naquele ambiente de morte, o cheiro pestilento entranhava-se nas roupas e já mal se respirava! O tempo passa sem que haja sinais da tropa do exército, que deveria ter chegado à povoação três dias antes! Os brancos que em Maquela se dizia estarem em Quibocolo, já devem estar longe... talvez na Damba. A solução mais racional é continuar a abrir caminho até à Damba, onde há água para lavar estes camuflados encrostados de poeira com o suor dos corpos sofridos pelo desgaste, mas também fedorentos com o cheiro dos cadáveres putrefactos a causar náuseas de tirar o apetite.

...Vale do rio Mbridge - esconderijos inimigos....

       Mal o sol aparece por entre as árvores viradas aos picos do Béu e já o comandante do grupo manda preparar o equipamento para arrancar numa caminhada difícil e perigosa. Aqui, o perigo é mais grave, porque a peste ronda os nossos corpos. Mesmo em contravenção às regras, aqueles dezoito homens avançam em direcção à Damba, numa jornada de mais de 60 quilómetros de terra batida. Os facínoras do Holden Roberto podem não chatear, mas obrigam a cuidados redobrados para contornar algumas árvores derrubadas sobre a picada. Durante 14 horas de penosa marcha, alguns já começam a fraquejar, tal é a sua debilidade. Mas a tenacidade do corpo e a abnegação do espírito ajudam a fortalecer as pernas para um derradeiro esforço suplementar. Lá ao longe, na Damba, sempre há um ambiente muito mais civilizado: com tropas do Exército, alguma comida de panela, marmita e garfo; e também há mulheres... para passear a vista e sentir o cheiro a catinga! Às sete da tarde terminava esta jornada, que ficará na memória de todos como o pesadelo de dormir com os mortos das cabeças sem corpo!

                                

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                 JURAMENTO

 

Juraste um voto constante

   de obediência e servidão

até à libertação do espírito.

 

A salvação está em saberes

defender a honra desse voto

   que te redime até à morte,

sem perderes o rumo norte.

 

Tens a luz da esperança

para venceres a adversidade

e com a pureza duma criança

vais encontrar a liberdade...

   com o empenho da tua vida

   vais lutar para a não perder

   por uma razão qualquer!

 

Jamais deixarás de saborear

tudo quanto a natureza oferta...

deita fora aquilo que não presta

   e o destino saberás desafiar.

 

         Joaquim Coelho, Combatente e repórter de guerra

In Livro: "O Despertard dos Combatentes" - Clássica Editora, 2005

(Premiado pela Academia Francesa em 2006)

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A Missão mais dramática do Combatente e Repórter de Guerra

Avatar do autor Jota.Coelho, 17.11.23

Do Livro: “Pára-quedistas em Combate: 1961-1975”,

do Coronel Pára-quedista Nuno Mira Vaz.

A 3.ª Companhia do BCP 31, sediada na Beira, sob o comando do capitão António Pessoa, estava prestes a terminar a operação Mocho na zona de Napota (a sul de Nangade), no Norte de Moçambique. Em 11 de Março de 1966, cumpridos trinta dias de empenhamento durante os quais tinha realizado inúmeras operações de reconhecimento e combate, onde recolheu cerca de 260 habitantes, que transportou para Nangade, e destruiu três acampamentos inimigos e parte dos guerrilheiros, a 3.ª CCP/BCP 31 foi incumbida de capturar determinado Régulo da região onde predominava o dirigente da guerrilha, Lázaro Kavandame, e trazer com ele a respectiva população....napota2.Dornier sobre Napota BCP31.jpg

   

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Saídos às dez na noite da Base Táctica de Napota e percorridos vinte e cinco quilómetros na direcção Sul, os pára-quedistas descansaram duas horas, a uns escaços quinhentos metros do objectivo – um acampamento localizado no vale do rio Mulunga. Ao amanhecer, assaltaram a sanzala, mas apenas lá encontraram duas pessoas desarmadas. Procedeu-se à batida da zona em busca de outros indícios da presença de guerrilheiros e, quando já se desesperava, foi capturado um guerrilheiro armado com uma espingarda que se escondia na vegetação circundante. O então 2.º sargento Joaquim Coelho, comandante de Secção, recorda:

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    "O assalto ao acampamento inimigo foi rápido, mas pouco produtivo. Apanhamos apenas um guerrilheiro armado, que ficou escondido para que a população e restantes guerrilheiros se pusessem em fuga. Provalvelmente, tinham sentinelas avançadas que detectaram a nossa proximidade. Apesar do nosso andamento acelerado para tentar capturar a população que se presumia ter fugido, foi uma tentativa frustrada e que nos levou a distanciar da nossa Base Táctica de Napota.

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       A inclemência do sol da tarde começou a sacrificar o nosso corpo; alguns esgotaram a água dos cantis e a ração de combate também foi consumida. (…) O dilema de continuar no encalço da população daquela sanzala-acampamento ou regressar de mãos a abanar, começou a tornar-se um pesadelo. Por consenso, avançamos pelo vale com indícios de verdura e humidade na terra, tendo em vista encontrar água… com hipóteses de recolhermos a população. Muitos quilómetros percorridos naquele inferno escaldante e água nem sinal, mesmo nos buracos que escavámos com dificuldade nos locais mais húmidos. O flagelo da sede começou a ensombrar a nossa missão, e os reflexos psíquicos diminuem. Os corpos já se arrastavam com dificuldade, sacrificados pelo cansaço que se avolumou nas pernas. Depois de dezoito horas de andamento quase contínuo, só queríamos encontrar água, porque a sede é terrível e massacrava a nossa vontade de prosseguir.

    As longas horas de percurso no vale resultam numa grande frustração. Antes de anoitecer, mudamos de rumo e seguimos para Norte, a caminho da Base Táctica. O guia já não tinha a certeza do caminho para regresso, mas sabíamos que, na direcção Norte, encontraríamos uma picada transversal, já nossa conhecida, a partir da qual há outro caminho para a Base Táctica. As horas eram negras como a noite, e os uivos chorosos das hienas entravam nos nossos ouvidos como um sinal de desalento – quase sempre se associam a morte. As hienas são uma espécie de carpideiras presentes nos velórios da vida selvagem!

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    Aproximava-se a meia-noite fatídica! Os homens da frente chegaram a uma pequena clareira onde se cruzavam duas picadas. O Pelotão da frente parou e o tenente Resendes conferenciou com o capitão e decidiram uma pequena paragem para recuperação de alguns elementos que se arrastavam com muita dificuldade.

    A Companhia começou a instalar-se, montando um cuidadoso dispositivo de segurança. A Secção do sargento Armindo tomou conta do lado esquerdo da clareira, a do sargento Botelho do lado norte e os restantes Grupos de Combate tomaram a defesa do Sul e da orla direita; já bastante a norte do rio Mulunga, local designado por Mendire, onde pretendemos descansar.

    Com mais de vinte e seis horas de marcha nesse dia, os corpos precisavam de repousar e recuperar energias. Fora um dia de sede danada. Alguns soldados, mal puseram as mochilas no chão, encontraram dois potes com água, casualmente ali à sua mercê. Reserva do inimigo? Só podia ser! O tilintar dos cantis em busca de um bocadinho do precioso líquido levou outros a precipitarem-se na direcção do milagroso oásis. Houve alarido, enquanto tentavam apanhar algumas gotas.

    Inesperadamente, dois ou três tiros disparados do exterior da clareira deixaram toda a gente em sobressalto. Os pára-quedistas que tentavam recolher água atiraram-se para o chão e outros rastejaram para fora do centro da zona descoberta, temendo o rebentamento de granadas atiradas pelo inimigo.

    Passada a surpresa do ataque, os gemidos fizeram-se ouvir com lancinante pedido de socorro! Três pára-quedistas prostrados no chão; um morto (soldado n.º 118/64, Álvaro Augusto Farelo) e dois gravemente feridos (soldados n.º 125/64, João Miguel dos Santos Madriana e soldado Gomes). Os enfermeiros correram a reanimar os dois feridos, mas como o local não oferecia segurança, porque não tinha pontos de abrigo, o capitão mandou providenciar a remoção do morto e dos feridos para um local mais seguro. Cortaram-se ramos de árvores para, com as lonas das tendas, improvisar macas; os enfermeiros injectaram coraminas e coagulantes nos feridos, além de improvisarem a administração de soro. Um dos feridos começou a mexer a cabeça e perguntou o que estava a acontecer! O enfermeiro deu-lhe duas palavras para acalmar!

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    Logo que ficaram prontas as macas para transporte dos feridos e do morto, a Companhia deslocou-se para local mais seguro, no meio de uma grande machamba de milho. Não havendo possibilidade de contactar Mueda para solicitar a vinda dum helicóptero para a evacuação das baixas, o capitão decidiu deixar ali o Pelotão com o morto e os feridos, enquanto os outros dois Pelotões continuariam a marcha até à Base Táctica em Napota, onde tinham possibilidade de comunicar via rádio com o comando da operação em Mueda e providenciar a vinda do helicóptero para evacuação e aviões para cobertura do pelotão sitiado. Se tudo corresse bem, as evacuações seriam realizadas no dia seguinte. Assim se fez, e o Pelotão, destroçado física e moralmente, com apenas dezoito homens em condições de combater, ali ficou à espera de socorros... que nunca chegaram!

    Durante a noite manteve-se um extenuante esforço para reanimar os feridos, já que o morto estava em paz! O sargento Botelho preparava os frascos de soro que o sargento Ventura Pinto segurava na mão direita, enquanto o enfermeiro transferia o tubo da agulha para o novo frasco da nossa esperança. Eram quatro horas da manhã quando as aves vindas da mata ensaiavam os primeiros gorjeios. O corpo do Madriana estremeceu, respirava com muita dificuldade. As pulsações imperceptíveis e o sinal da morte atemorizaram os socorristas. As injecções de coramina não estavam a resultar e as hemorragias internas não foram estancadas. Na agulha encravada no braço já não circulavam gotas de soro, nem se detectava a cana da veia para meter outra agulha. Num arremesso de desespero, o sargento Botelho tirou a navalha do bolso, passou os dedos pela lâmina, dizendo ao enfermeiro que só puxando a veia do pulso para fora se poderia meter a agulha. O enfermeiro segurou o braço esquerdo do moribundo, com o bico da lâmina, o Botelho conseguiu enfiar a agulha. Do frasco caíram algumas gotas, numa lentidão de recusa à vida! Entre os dois socorristas cruzaram-se olhares de esperança. Mas as gotas pararam de correr e o corpo definhava a olhos vistos. A uma nova tentativa para injectar soro, o corpo já não reagiu e esmoreceu definitivamente. Não tinha sinais de vida! O desânimo era total entre aquele pequeno grupo de homens bem preparados para a guerra, mas incapazes perante a morte. A desafortunada vivência piorou quando o outro ferido, o soldado Gomes, começou a sentir-se desprotegido contra a sanha da morte que o rodeava; e lançou uma exclamação que aumentou a nossa inquietação:

- Meus irmãos, vejo que está próxima a minha vez, mas só vos peço que não me deixeis nesta terra longe dos meus pais... Mas teve logo a voz do sargento Botelho para o serenar…

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    Os efeitos da sede já enevoaram os registos do cérebro e os olhos deixaram de enxergar os perigos que se ocultavam na mata... havia pouca convicção de sairmos dali incólumes… é sempre em frente, não nos vamos deixar definhar!

    O Gomes tremia muito, perante a triste realidade dos mortos que definharam a seu lado. Mas não tremia de medo... porque a morte passou e poupou-lhe a vida nesta última viagem! Mas o sangue que se escapava da ferida aberta no seu peito era uma grande inquietação. Os borbulhões vermelhos fragilizam a coragem de qualquer corpo ferido. E a alma sentia-se ameaçada pela perda do seu suporte num corpo em sofrimento; por isso, tinha que tremer... O corpo do Gomes tremia, e cobri-o com a manta; mas o calor do sol era forte! Um absurdo de remédio, que nenhum de nós queria suportar!

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    A fome e a sede perturbam a lucidez, como é natural; começamos a sentir os efeitos das alucinações que poderiam levar ao delírio! Era preciso procurar meios de sobrevivência, porque as rações e a água acabaram no dia anterior. Passava do meio-dia do dia 12 (Domingo) e não havia sinais de apoio aéreo, nem de quaisquer outros meios. Os sitiados pára-quedistas, desalentados e fracos, cada um a seu modo, procuravam proteger-se do sol abrasador, cortando milheiros para se cobrirem atrás dos minúsculos peitoris para defesa escavados na terra dura.

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    O sargento Botelho, coadjuvado por dois soldados, foi junto do guerrilheiro que haviam aprisionado na véspera e intimou-o a levá-los rapidamente a uma machamba onde houvesse melancias, que eram frequentes na zona. E as milagrosas melancias – matam a fome e a sede ao mesmo tempo – apareceram no terceiro milharal. Cada um trouxe as que pôde, metidas dentro dos casacos camuflados. A distribuição foi ordenada e saciaram-se as bocas daqueles combatentes já em evidentes dificuldades.

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   Seria uma hora da tarde, quando tudo sossegou. Os milheiros serviam de coberto… alguns até adormeceram, enquanto outros vigiavam. Inesperadamente, soaram dois estampidos secos. O sargento Botelho olhou nessa direcção e viu o soldado n.º 127/64, José Domingues de Sousa a tombar, com a cabeça a roçar a Armalite. Ainda ouviu os seus gemidos de fim de vida. A cabeça estava trespassada pelas balas; num arrebatamento doloroso, procurou-lhe a respiração, mas já não encontrou o fio de vida, porque a morte lhe roubou a vitalidade e surpreendeu-o no posto de vigia. A surpresa foi tal que ninguém queria acreditar! Num arremesso de raiva, às ordens do sargento Botelho, fizeram-se algumas rajadas de fogo em todas as direcções, enquanto o tenente Resendes apontava o morteiro e disparou duas granadas para o lado donde vieram os dois tiros certeiros que atingiram o Sousa que caiu morto e agarrado à arma no seu posto de observação.

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    Esgotados e desidratados, os sobreviventes caíram na realidade e tentaram arranjar forças para reagir ordenadamente. Já o sol se inclinava no horizonte e continuava a não haver sinal de avião ou helicóptero para auxiliar os pára-quedistas naquele dramático desterro. Com alguns milheiros e pequenos ramos de arbustos fizeram-se umas toscas armações para dar alguma sombra protectora ao corpo dos vivos e prevenção da putrefacção dos corpos mortos. Foram horas de espera e desalento, sedentos de justiça e de água. Então, o sargento Botelho olhou os seus camaradas sitiados e indagou do tenente Resendes se tinha alguma ideia como sair daquele inferno! Não havendo resposta concludente, dado o estado deprimido do oficial, o sargento Botelho dirigiu-se ao sargento Ventura Pinto (ambos experientes da guerra em Angola): - Temos que sair daqui enquanto temos forças para seguir para o acampamento e pedir ajuda. Aceite a sugestão, a decisão foi transmitida ao pessoal. 

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    Agastados pelo desânimo de tantas horas de infortúnio e dor, acossados pelas balas dos macondes que lhes rondavam o poiso, sem possibilidade de transportar as baixas por dezenas de quilómetros até à Base Táctica e sem qualquer contacto rádio, àqueles vinte e oito páras oferecia-se uma única alternativa: abandonar a zona enquanto ainda dispunham de forças para tal. Antes de partir, enrolaram os três corpos nas capas impermeáveis e colocaram-nos nas minúsculas valas abertas com as forças que ainda lhes restavam após quatro dias de reduzidos alimentos e muita sede.

    Depois de três dias de angústia entre continuar em local desprotegido, expostos às balas inimigas, ou ter de abandonar os corpos já pestilentos naquela machamba, a complicada situação fez de nós vulgares combatentes em luta pela sobrevivência perante invisíveis inimigos que vagueavam em redor do nosso inseguro poiso. Não desesperámos, mas deixámos os mortos, fomos pedir socorros e exigir helicópteros para os transportar, pois estávamos a cerca de quarenta quilómetros do acantonamento (…).

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    Melhoramos as macas improvisadas de ramos de árvores para transportar os dois feridos, mas o ferido de menor gravidade entendeu estar em condições de seguir pelo seu pé e agarrou a sua arma e perfilou-se para seguir viagem… armadilhamos o local, para evitar a profanação dos corpos, e seguimos na direcção do acampamento, abrindo caminho em direcção à mata contígua, com uma barragem de tiros de raiva. Eram três da tarde do dia 12 de Março. O Gomes, ferido por bala na clavícula esquerda, seguia na maca improvisada. Era preciso encontrar uma picada já conhecida de missões anteriores, como referência essencial para palmilhar mais de quarenta quilómetros até à Base Táctica em Napota. (…) Sem esmorecimentos, foram-se revezando os soldados que transportavam o ferido, de modo a distribuir a carga que se tornava mais pesada à medida que ia diminuindo o caminho a percorrer. Num gesto inesperado, o Gomes pediu aos camaradas que o transportavam para colocar a padiola no chão; disse que a dor devida ao seu ferimento começava a ser mais suportável do que o sofrimento daqueles que o transportavam. Com o sangue coagulado na ferida, começou a andar pelo próprio pé.

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    Chegaram à periferia da Base Táctica pelas seis da manhã do dia 13, lançaram os very-lights de aviso aos camaradas que ali se encontravam e que serviram para confirmar o reconhecimento recíproco. Parecia que as emoções das horas de infortúnio estavam a ficar para trás, quando souberam que um Pelotão de Pára-quedistas, comandado pelo alferes Pinto, havia saído em seu apoio, para a zona do desastre! O local tinha ficado armadilhado! Teriam eles o cuidado de cumprir as normas de segurança, usando a senha para saber se ainda havia camaradas na zona, antes de entrarem na machamba? Felizmente, este Pelotão regressou sem conseguir estabelecer contacto, só possível através de sistema de senha e contra-senha, que naturalmente não funcionou por não haver réplica no local do enterramento dos três mortos.

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    Ainda da parte da manhã, um avião DO-27 veio lançar rações de combate sobre a Base Táctica e, a meio da tarde, um helicóptero veio recuperar os feridos para Mueda. Porém, no que respeita à recuperação dos mortos, tal só seria possível no dia seguinte, pois o helicóptero apresentava uma avaria na hélice.

    No dia 14, passados trinta e cinco dias sobre a saída da Beira, os pára-quedistas realizaram a mais delicada e custosa missão daquele longo destacamento: resgatar os camaradas mortos, de modo a serem entregues aos familiares na Metrópole. Ao alvorecer, sob o comando do capitão Mascarenhas Pessoa, saíram da Base Táctica cerca de quarenta voluntários, decididos a aguentar um percurso de oitenta quilómetros entre a ida e a volta, sujeitando-se a inúmeras ameaças por parte da guerrilha em terrenos onde ela se movimentava com à-vontade. A meio da tarde, o grupo de resistentes atingiu o local onde repousavam os corpos sem vida de três camaradas. Pouco depois aterrou o helicóptero para a evacuação. Com a segurança devidamente montada, seis dos pára-quedistas mais afoitos prontificaram-se para levantar e acondicionar no helicóptero as lonas com os corpos frios daqueles valentes e agora amortalhados já em adiantado estado de decomposição.  

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    Regressados a Mueda, cansados das longas caminhadas, apeados e em viaturas, dos dias tórridos no meio da savana, das noites frias entre as matas; manhãs de sonhos em cenários de morte, com os corpos esguios e as carnes ressequidas de magreza, os rostos crestados pela dureza das jornadas; ainda nos esperava o ritual da embalsamação dos mortos. Quatro dias depois da recuperação dos cadáveres, este inesperado trabalho aumentou a nossa agonia.  

    O médico do posto de socorros de Mueda esperava a ajuda dos pára-quedistas para as formalidades da identificação dos defuntos e para o fecho das urnas. Mas os corpos desfaziam-se em pestilentos líquidos… e o sargento Botelho, usou dos conhecimentos de química e dirigiu-se aos aprovisionamentos do Batalhão de Engenharia sitiado em Mueda, onde lhe forneceram sacos de cal. Com umas ligaduras molhadas a tapar as narinas, uns iam espalhando cal viva à volta dos restos mortais e outros colocavam as tampas nas urnas. Trabalho ingrato, que ninguém aguentava mais de cinco minutos seguidos, sem ter que sair para respirar ar puro! Após o trabalho de soldadura do chumbo de cada urna, o sargento enfermeiro Franklin pregava uma pequena cartolina na tampa, com a identificação do defunto; além disso, riscava com a ponta duma tesoura o número e o apelido na madeira da urna.

    Ainda os nossos defuntos não tinham sido exumados nas respectivas urnas com destino às terras de origem e mais cinco soldados do Exército foram mortos pelos efeitos do rebentamento de uma mina que destruiu o Unimogue em que regressavam de Diaca, via curva da morte Sagal. Nunca soubemos se regressaram à metrópole ou se foram ocupar as campas já abertas no cemitério de Mueda, onde Comandante local pretendeu enterrar os três defuntos pára-quedistas!  

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 (…) Assim é em Napota, terra de Macondes, neste dia 14 de Março de 1966, quando se desliga o fluxo da seiva que se escapa nesta penúria da guerra. De que vale sermos afoitos e eficazes no cumprimento das missões, quando os meios de apoio não existem, os grandes chefes nos ignoram e as distâncias nos deixam à mercê da sorte, porque um corpo perfurado perde a seiva da vida e jamais terá hipótese de receber os necessários socorros.[1]

NOTA: “Sargento Botelho” é o pseudónimo de Joaquim Coelho, usado nas narrativas literárias dos seus livros sobre o tempo em Moçambique.

# [1] A narrativa respeita o depoimento do segundo sargento Joaquim Coelho, na altura comandante da Secção que sofreu o maior número de baixas. As acções aqui descritas estão parcialmente incluídas em COELHO, Joaquim, Guerra Armadilhada, edições Sentinela, Vila Nova de Gaia, 2016. As partes em itálico correspondem a transcrições do livro.

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Documentários das Guerras Ultramarinas - 1ª Série

Avatar do autor Jota.Coelho, 17.11.23

O Canal de televisão Camões TV - Canadá

apresenta a Guerra Colonial:

‘África Nossa’ revela depoimentos inéditos de ex-combatentes da Guerra Colonial. Dirigida por Paulo Fajardo e produzida pela Camões TV MDC, a série oferece uma profunda visão das vivências dos soldados nas colônias portuguesas de 1961 a 1974. Tem a colaboração do Repórter de guerra Joaquim Coelho e do Movimento Cívico de Antigos Combatentes, entre outros. Em 25 episódios.

Cada imagem tem o link de acesso ao documentário, clik.

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Episódio 02 - Moçambique:M-Operação Zeta,BCP31 (2).jpg

Episódio 03 - Guiné:Guiné, na onda....jpg

Episódio 04 - Angola:Angola- bazuca,artilheirosZé Manuel.jpg

Episódio 05 - Angola....Camões TV-Ep.05-Angola.jpg

Episódio 06 - Moçambique....Camões TV-Ep.06-Moçambique.jpg

Episódio 07 - Angola....Camões TV-Ep.07-Angola.jpg

Episódio 08 - Moçambique....Camões TV-Ep.08-Moçambique.jpg

Episódio 09 - Moçambique....Camões TV-Ep.09-Moçambique.jpg

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Episódio 12 -Guiné....Camões TV-Ep.12-Guiné.jpg

Fim da 1ª Série.

A 2ª Séria será publicada até 28-11-2023

Memórias do Dia da Mãe, em tempo de guerra

Avatar do autor Jota.Coelho, 07.05.23

Em Homenagem a todas as Mães do mundo

Porque o Dia da Mãe merece ser festejado com todo o Amor que devemos às nossas Mães, aqui deixo algumas memórias que jamais esquecerei.

A longa caminhada da vida, nos tempos de crescimento, formação, guerras, trabalho e viagens com diversas finalidades, perrmitiu conhecer outros povos, diferentes formas de vida, sociedades mais ou menos desenvolvidas, sempre na perspectiva de colher amplos conhecimentos para o melhor desempenho e partilha comunitária, em prol de um mundo mais solidário com gente feliz.

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Pequeno apontamento do Iníco da complicada vida Militar:

- Primeiro Capítulo do livro "O Despertar dos Combatentes"  publlicado pela Clássica Editora - onde consta carta enviada a minha Mãe:

                DO PARAÍSO AO INFERNO...

         Serão os sonhos determinantes na vida dos seres humanos? Alguns sonhos podem ser uma espécie de luz que alumia os caminhos mais sinuosos, mesmo quando a claridade de cada dia parece escapar às turbulências dos tempos desta vida. 

Na rotina da paradisíaca Granja do Marquês, nas planícies de Sintra, o Joaquim Sousa dá os últimos retoques nos paramentos do Tenente-capelão Figueiredo, antes de agarrar as cordas dos sinos que alertam a vizinhança da Base Aérea 1 para o dever dominical. A missa começa às nove horas em ponto e a capela apresenta-se cheia, nas vésperas do Natal de 1960. No final da missa, enquanto o ajudante arruma as galhetas do vinho e da água, o padre deixa transparecer a sua inquietação sobre o futuro das terras ultramarinas: “Sabes, Joaquim, o dr. Vasco Garin já não conseguiu demover as Nações Unidas de aprovarem uma resolução anti-colonialista que impõe a Portugal o reconhecimento da autonomia aos territórios ultramarinos. E tudo indica que Portugal perdeu o apoio dos países da Europa considerados amigos, porque votaram a favor dessa resolução, o que supõe a sua hostilidade à política portuguesa actual.”

O  Joaquim Sousa sente-se confuso com as palavras do capelão, e tenta perceber o efeito da “resolução anti-colonialista”, perguntando:

- Será que a tropa vai sofrer algumas consequências, senhor capelão?

- Meu rapaz, conforme as coisas estão a evoluir, não tarda muito a estarmos todos envolvidos.

Deixando transparecer um sorriso, o capelão deu conta de que as caixas de vinho destinado à consagração nas missas estavam a diminuir a olhos vistos. Pudera! As tardes de sossego, em companhia dos faxinas da messe de oficiais, têm proporcionado bons lanches de pão com bife, regados com o licoroso vinho oferecido pelas casas de vinho do Porto. Durante quatro semanas a substituir o sacristão deram para baixar os lotes de caixas armazenadas na arrecadação da capela!

O Sousa fica a matutar nas consequências da “resolução”: “Agora que iniciei a especialidade de “circulação aérea” e subi no nível da qualidade do rancho é que a política internacional faz abanar o Governo?”

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A alvorada do dia 23 de Janeiro de 1961 deixa uma onda de inquietação em todos os militares da Base. Com algum nervosismo, os chefes determinam a proibição de saídas do aquartelamento, porque está tudo em prevenção. As patrulhas armadas posicionam-se nos pontos estratégicos, duas baterias anti-aéreas são colocadas junto à placa de estacionamento dos aviões de instrução, as metralhadoras pesadas, camufladas atrás da torre de controlo, apontam para a pista principal; os mais antigos dizem nunca ter visto tanto aparato e os comentários nada esclarecem.

Pelas 10 horas, dois cabos das transmissões em criptografia passam pela sala dos alunos pilotos e deixam a informação de que o paquete Santa Maria foi assaltado por gente comandada pelo capitão Henrique Galvão. A notícia espalha-se pela torre de controlo, chegando aos bombeiros e às camaratas. Dias mais tarde, sente-se uma preocupação crescente por causa do pessoal que compõe o pelotão da Polícia Aérea que embarcou para Angola, a fim de dar segurança às obras de construção da Base Aérea do Negage, gente que todos conhecem. A notícia de que o paquete com os “revoltosos” se dirige para Angola não agrada a ninguém. O Vizela pede ao sargento Fernandes que o nomeie para a secção de extintores portáteis, para poder ter fins-de-semana livres. É aí que reúne os amigos fandangueiros, para falar da situação política e militar. As primeiras medidas tomadas pelo presidente John Kennedy sobre África são de apoio à autodeterminação dos territórios portugueses do Ultramar. O aluno piloto Malaquias de Oliveira deixa transparecer alguma inquietação, prevendo que o curso não vai servir só para alargar os horizontes do Minho ao Algarve e ingressar na aviação civil, mas pode passar pelas terras de África. O espectro da guerra começa a condicionar os sonhos do pessoal que escolheu as proveitosas especialidades da Força Aérea para conseguir um futuro mais risonho na vida civil (em 1966, este piloto foi destacado para a guerra em Moçambique, onde o seu avião T6 foi abatido por anti-aéreas da Frelimo, que lhe causaram a morte na zona de Marrupa-Révia).       

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Os aviões Harvard T-6 continuam a levantar voo com os jovens alunos que um dia sonharam confundir-se com os pássaros; são mais de vinte a levantar voo em cada parte do dia, de manhã e de tarde. Os mais determinados saem do perímetro de treino, configurado pelo triângulo entre Mem Martins, Peniche e Praia das Maçãs, e vão mostrar habilidades aos seus conterrâneos ou lançar cartas de amor às namoradas, fazendo acrobacias que lhes estão interditas e abusando da lei da gravidade. Por diversos percalços, nem sempre regressam à base. Os controladores, instalados na torre que domina a planície da Granja do Marquês, tudo registam - quedas por avaria ou por falta de combustível - e anotam as peripécias dos desastrados candidatos a aviadores! Mas também os casos insólitos ficam gravados na memória dos componentes da guarnição, como o que foi denunciado por um telefonema que alertou a torre para o “furacão” que passou sobre a esplanada da Praia das Maçãs, espatifando cadeiras e mesas. Identificado como sendo o avião 1723, pilotado pelo cabo-instrutor Barbosa, logo o comandante, coronel piloto aviador António de Oliveira, ordenou ao oficial de dia que recebesse o “herói” com honras de prevaricador e o metesse na “casa da rata”. Privado da liberdade dos pássaros, que via através das grades, e suspenso de voar, teve tempo para perceber que aquela não foi a maneira correcta para convencer o pai da Nelinha (que ele ama com todas as forças) a mudar de ideias e autorizar o namoro!  

          Ontem, pelas três da tarde, a perícia do sargento-instrutor Adalberto fez planar o avião T6 Harvard, com o motor pifado, desde Pêro Pinheiro até à margem da ribeira que passa ao fundo da pista sul... ficando do outro lado, com as asas partidas e soltas da carlinga que se incendiou. Foi rápida a intervenção dos bombeiros, cujo carro, correndo pela pista em direcção ao desastre, afocinha dentro da ribeira, obrigando à utilização dos extintores portáteis para socorrer os dois ocupantes (instrutor e aluo). Nem todos os extintores funcionaram correctamente, o que implica um processo de averiguações ao azarado Vizela. O major Cerqueira, mais conhecido pelo major “colhões”, instrutor da Isabelinha Bandeira, filha dos condes de Rilvas, manda arquivar o processo por não terem sido apuradas culpas.

Depois de momentos de aflição, os controladores riem às gargalhadas! Na iminência de um grave acidente, lançaram o very-light salvador; o piloto, que se preparava para aterrar em cima de outro avião que ainda rolava na pista, acelera para borregar e vê a carcaça cair e rodar sobre a asa direita, saindo da pista, enquanto o motor percorre mais de cem metros aos trambolhões! Calmamente, o piloto sai da carlinga e vai ver o estado em que ficou o motor. A gargalhada é inevitável.   

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Ao cair da noite de sexta-feira, para manter os hábitos da roubalheira, o sargento Gabino incumbe o cabo-mecânico Alcides, um matulão de Montalegre, de empurrar pela pista abaixo, até à estrada, o bidão de duzentos litros de gasolina escondido debaixo das ervas da valeta. Em tão má hora o fez que o rapaz foi detido pela guarda da Base e metido na “casa da rata”. Foi o maior azar que algum especialista poderia ter; punido com dez dias de prisão, desencanta-se com a vida e entra no mundo do crime. Em poucas semanas, passa de lorpa a angariador de prostitutas que contrata em Lisboa, aos fins-de-semana, fazendo-as entrar no hangar onde uma cama improvisada serve para consolar os amigos que pagam a respectiva taxa de uso. A meio da tarde, passa pelas camaratas a apregoar a chegada das meninas: 

- Eh, pessoal, quem quer “foderi”? São duas gajas boas como milho.

Aquele modo de vida tem curta duração, porque um “oficial de dia” mais atento descobre a marosca e enrola o rapaz numa folha de papel com 25 linhas. Chegado ao comandante, este determina a nomeação do cabo Alcides para Angola, como castigo. Antes do embarque, arranja maneira de legalizar uma das miúdas como sua esposa, com direito a transporte por conta da tropa. Soube-se, mais tarde, que o negócio corre de vento em popa nas terras africanas! Segundo a filosofia de Stendhal, “qualquer bom raciocínio é ofensivo”: porque o raciocínio pode descobrir o mal que dá prazer, sendo por isso que a natureza do ser humano gosta de viver com um pouco de ignorância reconhecida... Será por isso que há burros espertos?

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O Sousa sente-se confuso com os estranhos sonhos que lhe tolhem o sono. Nas últimas noites, só vê paisagens africanas, com selva por todos os lados e muitos elefantes rodeados de leões famintos. A noite passada, teve outro sonho, muito mais realista, e escreve à mãe, dando-lhe conta da inquietação:

“Minha Mãe, tive um sonho que me perturba o pensamento quanto ao futuro!

Estava um frio cristalino, quando passei pela Baixa de Lisboa e vi muitos mendigos de olhar baço a estender a mão e nem a santa madre igreja lhes dava abrigo na velha Sé Catedral.

Entrei num barco velho, acostado na Gare de Alcântara; no tombadilho escorregadio, andavam umas velhas a limpar os excrementos que as gaivotas cagaram para a guarnição de S. Bento. O timoneiro limpava o leme ao fato acolchoado do homem que brandia a cruz em direcção ao céu. Bem agarrado ao leme, o timoneiro, que foi lente em Coimbra, arregalava os olhos na direcção do sul e cochichava ao ouvido do homem do crucifixo; mas o céu não respondia e ele sorria, sorria... com a cruz dependurada ao peito. Impaciente e temeroso, eu queria voltar para terra e limpar a neblina dos olhos... tomar a vida pela mão e sonhar. Mas o barco, atulhado de morcegos e beatas, perdeu-se no mar e o homem rude, de nariz alongado, deixou cair os olhos sobre as águas, dizendo: «Portugal d’aquém e d’além mar está comigo». Senti um solavanco na carcaça e o barco estava a adornar... Lancei-me à água e nadei, nadei, até me sentir flutuar no tempo, sem nunca mais encontrar o cais. Já muito longe de Lisboa, vi duas ilhas ancoradas! Seriam ilhas? São Tomé e Príncipe? O calor asfixiava naquela paisagem paradisíaca, onde dois homens, calmos como a maresia, pescavam à sombra dos coqueiros que se atiravam para o céu! Ajudaram-me a levantar e comecei a ver com mais claridade: muitos soldados assustados, passavam pelo aeroporto, embarcados na ilusão duma pátria longínqua; meus irmãos desprevenidos e acorrentados às ruínas do império que espera as malfadadas espingardas que uns tipos destemidos lhes tinham prometido. Perdi o pensamento no preciso momento em que chegou o homem do leme, o da cruz vinha atrás –, mandou servir um refresco que me soube a fel; mandou fechar todas as saídas, para o homem da cruz converter os soldados: «Ides combater os infiéis que mataram inocentes polícias!» Todos ficaram a tremer, quando o homem do leme mandou embarcar o povo sob o seu comando. Mal vi uma fresta de luz e comecei a pensar, levei uma pancada na cabeça que me causou arrepios... Era o homem de fato acolchoado a bater com a cruz! Percebi que só os motores podiam falar... o avião seguiu rumo a Luanda, onde encontrei vultos a correr, pareciam macacos; em vez dos elefantes, vi os massacres que deixaram os mortos a ornamentar as ruas, onde as crianças, chorosas, agonizavam, ensanguentadas no sangue dos pais. Um estremecimento arrepiante!... Acordei num sítio com silêncio... tinha o pescoço dorido!

Deste seu filho militar, que suplica preces aos deuses da paz e da concórdia. Acordei na Granja do Marquês, onde os aviões barulhentos nos preparam para a guerra.” 

Com a chegada do pessoal que vem de Lisboa, nota-se um ar sombrio, mesmo de inquietação. Os murmúrios começam a espalhar-se pelas salas dos pilotos, nas oficinas e na torre de controlo: “Os jornais de Lisboa trazem notícias alarmantes do terror em Angola!” “Consta que são aos milhares os corpos barbaramente mutilados pelos terroristas”. A notícia espalha-se por todos os lados, causando alarme entre o pessoal mais antigo.

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Ninguém quer acreditar no que está publicado na Ordem de Serviço: “Todos os militares com menos de 18 meses de serviço devem apresentar-se na Secretaria das respectivas esquadras, durante esta semana”. Os especialistas mal classificados nos cursos e outros militares do serviço geral devem preparar-se para embarcar com destino à Base Aérea 3, a fim de frequentar um estágio de Polícia Aérea com a duração de três semanas! O desânimo é geral, sem ninguém perceber o alcance de tal determinação. São várias dezenas de inconformados com a situação, cada um a pensar no futuro empenhado. Polícia Aérea! Três semanas de preparação para a guerra? Por entre olhares sisudos e palavras balbuciadas a conta-gotas, vai-se espalhando a notícia de que grande parte dos componentes do pelotão de Polícia Aérea que defendia a Base do Negage foi aniquilada pelos terroristas. “Mas que fim tão inglório”, dizem alguns; “que azar do caraças”, dizem outros.

Entre embarcar, com grandes probabilidades de ser esquartejado, ou desertar, abandonando o futuro e uma vida normal, é uma escolha muito complicada para o Sousa. Mesmo sabendo que jurou defender a pátria e a bandeira, não vê esse compromisso estender-se para além da Lusitânia; no entanto, entende que desertar é um acto de cobardia e de abandono dos portugueses que estão sendo massacrados.

          Passando por um percurso cheio de peripécias, o Sousa chega a Luanda com vontade de ajudar a combater as hordas de selvagens terroristas que estriparam e esquartejaram inocentes no Norte de Angola. Preparado na dura instrução de caçador pára-quedista, embarca no avião da noite, sem ter ninguém a dizer adeus, sem se despedir dos familiares e dos amigos. Cultiva a ideia de que as lamechices só servem para esmorecer a vontade de vencer! Meses depois, enviou uma mensagem para o “Notícias de Penafiel”:

Neste momento de dúvida e de tristeza, sinto a nostalgia da ausência que me dá saudade. Vou abandonar a mãe-Pátria e partir para a nossa querida província de Angola. Apodera-se de mim o desejo de abraçar todos os entes queridos, os grandes amigos e colegas. Estou sensibilizado, mas não desejo ser herói nem famoso, não pretendo conquistar o que quer que seja. Sou chamado a defender a Pátria, a manter a soberania portuguesa. Parto confiado na protecção omnipotente. Será sempre essa a minha defesa, o meu refúgio. Agora que me afasto de vós, pedi a Deus que eu não tarde a voltar. É meu dever; por isso vou com a fronte erguida.”

       APRESENTAÇÃO

 

Parti às seis da tarde do aeroporto,

    sem ninguém a dizer adeus.

Com os anjos voei no azul dos céus,

    com vontade de continuar vivo,

porque ao destino nunca me esquivo...

 

     sem olhar p’ra outra banda

desembarquei na pista de Luanda,

onde encontrei a ausência do sabor

e a pobreza das vidas sem amor!

 

Caminhei embrulhado no destino

    e fui condenado ao silêncio...

A importância de nascer menino

esvai-se em cada hora de combate,

mesmo que os sinos toquem a rebate! 

 

Já ouço o estrondo dos canhões

    vomitando fogo nesta terra...

pela tarde regressam os aviões

com os mortos vitimados na guerra

     onde uma mina obscura

nos causa grande amargura.

 

Ainda espero uma carta secreta

que me deixe a porta aberta...

pois não sei se outros saberão

porque se morre a bem da Nação! 

 

           Luanda, 1961

           Joaquim Coelho

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Tempo de Esperança

Avatar do autor Jota.Coelho, 25.04.23

Comemorar o 25 de Abril

sem esquecer os "capitães" cobardes e traidores que desprezam

os Antigos Combatentes

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AOS COMBATENTES

 

Amigos e camaradas combatentes

Não nos deixemos amofinar…

Mesmo velhos, somos valentes

E aos ignorantes vamos ensinar.

 

Não estamos aqui para bajular o poder dos homens pequenos… Eles não entendem as noites desavindas passadas nos confins das matas africanas.

Vivemos tempos tresloucados e ao ritmo dos burros sem freio, que nos perturbam a vida com mordidelas nos proventos ganhos à custa do esforço de muitos anos de trabalho profícuo e comunitário.

É na barafunda politiqueira que se perdem os últimos valores que fazem de nós homens maiores do que o tempo das descobertas modernas, porque o desconcerto programado não consegue ceifar o carisma do espólio que doamos à Pátria.

Glória aos homens Combatentes, a nossa força não abranda com o escárnio dos homens pequenos, homens desprovidos de sentido patriótico, que imaginam que estamos mortos.

Sem desespero e sem esmorecimentos, mesmo na jeira conspurcada pelos energúmenos poderes que nos atiram para o precipício, mesmo com a esperança despedaçada, estamos longe de aceitar a despedida sem darmos os açoites que nos merecem.

E quando o espírito da fraternal camaradagem atingir o auge das forças emanadas nos direitos que nos negam com desdém, o estrondo dos nossos clamores enraivecidos terão o efeito dum cataclismo desbastando as bestas que nos comprimem a vida.

Eventualmente, os que se vão despedindo sem usufruírem do reconhecimento da sua dádiva à Pátria, serão os que vão rogar por nós e pedir piedade por aqueles que um dia levarão nas trombas, tal é o azedume acumulado!

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Fontes de Conhecimento

Avatar do autor Jota.Coelho, 23.04.23

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A leitura é fonte de conhecimento que ajuda a libertar a mente e a vencer com sucesso.

O mundo precisa de mais gente com coragem para mudar, gente louca que avance contra as injustiças sem olhar aos juízes que nos julgam com o sentimento farisaico dos deuses endeusados à servidão dos poderosos e do vil dinheiro. Precisamos urgentemente de gente corajosa, gente que se desprenda do sofá e venha para a rua protestar contra os vilões que nos atrapalham a vida e corrompem os dias de esperança. Segue o teu caminho como sendo construído por ti, busca a felicidade dentro de ti próprio para a poderes partilhar plenamente.

A mais eficaz protecção dos nossos direitos está no grau de conhecimentos que possuimos.

Clik naimagem para ver temas:

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